terça-feira, 4 de maio de 2010

Mensagens pela internet à pacientes com câncer

O Instituto Mario Penna, em Belo Horizonte instituiu uma projeto inovador para os pacientes internados em tratamento contra o câncer.
A campanha, denominada "Doe Palavras", permite que os pacientes recebam mensagens pela internet de amigos ou anônimos, sendo estas mensagens reproduzidas nas 12 TVs instaladas nas unidades de quimioterapia, radioterapia e sala de espera do hospital. A ideia do projeto é criar um banco de frases que possam transmitir conforto e esperança aos pacientes e familiares, e por isso mesmo, as frases passam por uma triagem para que se evitem piadas ou frases desagradáveis.
Segundo o diretor do hospital Cassio Eduardo Rosa Resende, "o paciente se sente envolvido por uma corrente virtual que se torna real".
As mensagens ficam nos televisores por 24hs e também podem ser lidas no site da campanha. No final do ano as melhores serão compiladas em um livro a ser distribuido para os hospitais especializados em tratamento de câncer.
Se você também quiser participar dessa corrente virtual do bem, envie sua mensagem para www.doepalavras.com.br.
Ana Angelica e Valdeli

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Um certo mal-estar contemporâneo...

Os últimos 20 anos têm sido surpreendentes para a humanidade. O avanço tecnológico, em todas as áreas do conhecimento humano vem possibilitando aos indivíduos uma ampla gama de escolhas até então inimagináveis, e muito têm contribuído à sociedade, uma vez que o indivíduo não se vê mais limitado a situações ou restrito a fazer escolhas que até então limitavam seus anseios.
Há bem pouco tempo, as famílias se organizavam de uma forma tradicional, as experiências emocionais de relacionamento se davam preferencialmente no ambiente doméstico e as opções no momento de escolha profissional eram restritas, muito vezes restritas aos cursos de medicina, engenharia ou direito, profissões que eram revestidas de status social. Estas escolhas se davam muitas vezes pela influência paterna, o que protegia o indivíduo das angústias relacionadas ao momento de definição profissional.
Os contatos sociais aconteciam dentro dos limites da escola e do bairro, e os relacionamentos afetivos geralmente se davam entre as pessoas mais próximas, não raro entre pessoas que se conheciam desde criança.
As possibilidades se ampliaram. Novos cursos superiores ou cursos de formação técnica surgem a cada dia. Se antes fazer um curso superior era sinônimo de emprego garantido no futuro, vemos hoje que essa formula não é tão exata. Além do mais, as facilidades para se fazer cursos no exterior são crescentes. Assim, é possível vermos hoje famílias em que cada um dos filhos se encontra em um país diferente fazendo coisas completamente diferentes.
As possibilidades de contatos sociais também cresceram. As aproximações acontecem nos mais diversos lugares – em cursos, pela internet, em viagens, podendo acontecer entre pessoas de culturas totalmente diferentes.
Enfim, as possibilidades de escolha em todos os campos – profissional, afetivo, sexual e social - romperam todos os limites.
Entretanto, paralelamente ao grande número de possibilidades, percebemos que as pessoas encontram-se angustiadas, perdidas diante de tantas possibilidades, queixando-se de confusão, sentimentos de vazio e desamparo, e não reconhecimento de suas próprias identidades. As pessoas parecem não saber o que fazer diante de tudo isso, e então se sentem paralisadas, engessadas. Como conseqüência direta, observamos o aumento da prevalência de alguns quadros psicopatológicos como os transtornos de ansiedade e a depressão.
As psicopatologias, na sua maioria, não são simples manifestações de aspectos neurofisiológicos que se apresentam de forma desorganizada, mas devemos entendê-las como resultantes da inter-relação desses aspectos biológicos, de uma estrutura de personalidade que se apresenta fragilizada, associados a interação do indivíduo com o seu meio, a partir das relações que estabelece, e da forma como se coloca no mundo.
Outro fenômeno da atualidade é o surgimento de grupos radicais, fundamentalistas, totalitários, seja no campo da religião, política ou cultura. Na maior parte das vezes seus adeptos estão entre as pessoas que vivem intensamente as angústias descritas acima e que encontram nesses grupos uma possibilidade de constituição da identidade uma vez que os limites eu/outro, interno/externo são rigidamente estabelecidos.
Podemos dizer que os tempos são modernos, as possibilidades sem fim, mas que as pessoas continuam precisando de contornos. Precisam sentir-se seguras, o que se dá à partir do reconhecimento de si mesmo como um indivíduo integrado, e isso só é possível através do enfrentamento da angústia e do desamparo, uma vez que, cada vez mais precisamos nos tornar responsáveis pela construção de nossos limites internos e de nossos paradigmas.
Ana Angélica e Valdeli

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Evento “Música e Consciência”: nós apoiamos!

A ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais) - www.anda.jor. br – realizará um show para sensibilizar as pessoas em relação aos direitos animais e à preservação do planeta, no próximo dia 29 de abril, no SESC Pompéia (choperia), às 21h.
Grandes nomes da música brasileira, como: Fernanda Porto, Nuno Mindelis, Palavra Cantada, Patrícia Marx, Renato Teixeira, Teatro Mágico já estão confirmados. A atriz Gabriela Duarte também estará presente para chamar a atenção sobre a necessidade de mudarmos nossas atitudes.

O concerto “ANDA – Música e Consciência – Pelos animais, pelo Planeta” pretende disseminar por meio da música e dos artistas a importância de vivermos em harmonia, respeitando a vida.

Durante o evento, o artista plástico ambiental Alexandre Huber, pintará um grande painel retratando animais marinhos (a vida nos oceanos).

Será o primeiro show no Brasil com a proposta de levar uma mensagem de convivência pacífica e ética com todos os seres. Os artistas dão um exemplo de consciência ao se reunirem para cantar e se apresentar sem cachê. Todo o evento está sendo construído com colaborações voluntárias.

As emissões de gases estufa provocadas pela realização do show "ANDA – Música e Consciência" serão neutralizadas com o plantio de árvores no Parque Ecológico do Tietê. A iniciativa é uma parceria da ANDA com o Instituto Brasileiro de Defesa da Natureza.

Mais sobre a ANDA (Informar para Transformar)
A ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais – foi fundada em 28 de novembro de 2008 pela jornalista Silvana Andrade e tem como seus principais objetivos difundir informações e valores que gerem consciência para defesa e garantia dos direitos animais, incentivar à reflexão sobre a necessidade de mudar a maneira como os animais são considerados na sociedade, gerar a percepção de que podemos construir um mundo de paz para todos os seres e criar ações que estimulem a convivência harmônica entre pessoas e animais.

A equipe é formada por jornalistas, filósofos, biólogos, nutricionistas, advogados, promotores públicos, professores, escritores, publicitários, entre outros profissionais que atuam voluntariamente na ONG. Atualmente são 36 colunistas, além das colunas, o site conta com mais de 300 artigos postados e entrevistas exclusivas. Cerca de 50% das notícias publicadas são produzidas pela redação da ANDA, o restante são clipadas de outros veículos. Com tão pouco tempo de existência, a ANDA já conta com cerca de 200 mil acessos únicos por mês e internautas em 65 países.

Serviço:
Anda – Música e Consciência Pelos Animais, pelo Planeta
Data: 29/04/2010
Horário: 21h
Censura livre
Local: Sesc Pompéia - Choperia - São Paulo / SP

Valdeli e Ana Angélica

terça-feira, 20 de abril de 2010

Algumas considerações sobre a pedofilia

O escândalo envolvendo a Igreja Católica em casos de pedofilia, e as recentes notícias sobre a ocorrência de novos casos a cada dia tem levantado questões e gerado algumas distorções conceituais sobre essa grave psicopatologia, o que nos levou a fazer algumas considerações.
Sem dúvida alguma o assunto é complexo e não temos a pretenção de esgotá-lo nem tampouco de discorrer tecnicamente sobre o mesmo, na medida em que este blog não se destina somente a profissionais da saúde mental, mas pretendemos fazer alguns assinalamentos que nos parecem importantes.
A pedofilia, por definição, é uma perversão sexual onde a atração e o desejo sexual de um adulto está dirigido para crianças pré-púberes. Embora a maioria dos casos relatados envolva agressores do sexo masculino, o comportamento pedófilo não é característico do sexo masculino. Na verdade, especula-se que o comportamento pedófilo em mulheres ocorre de forma mais velada, através de uma erotização do contato físico e que de alguma forma não é prontamente identificado porque o ato de cuidar, acariciar e de tocar uma criança é socialmente interpretado, em um primeiro momento, como um ato comum relacionado à maternagem. Não existe nenhuma correlação entre a pedofilia e o homossexualismo, como algumas pessoas insistem em fazer, esta é uma afirmação inconsistente e preconceituosa, na medida em que a pedofilia pode ser encontrada em homossexuais e heterossexuais.
Sua etiologia não foi plenamente estabelecida até o momento. Por algum tempo, alguns estudos levantaram a hipótese de que as pessoas que praticavam pedofilia em algum momento de suas vidas pregressas foram vítimas de abuso ou violência sexual, porém não houve até o presente momento uma comprovação científica desta relação. Alguns estudos tem sido desenvolvidos no sentido de encontrar bases biológicas para tal comportamento, mas ainda não temos resultados consistentes e satisfatórios.
Embora os sintomas sejam claros, a pedofilia muitas vezes se apresenta em um quadro misto, sendo difícil em alguns casos determinar se ela é um quadro primário ou secundário a outras formas de perversão. Muitas vezes pedófilos também apresentam quadros de sadismo ou voyeurismo, por exemplo.
Existem poucos estudos na área da saúde mental que abordem essa questão, porque tais pacientes raramente chegam aos consultórios ou serviços de saúde buscando tratamento para esta patologia. Os pedófilos geralmente só são identificados quando seus atos são criminalmente denunciados. Isso ocorre porque tais pessoas na maioria das vezes conseguem ter uma vida com adequação e adaptação nos demais setores (familiar, social, ocupacional) ficando a perversão configurada no estrito campo da vida sexual. Não é incomum, por exemplo, que a denúncia do envolvimento de um membro da família em casos de pedofilia surpreenda aos demais, uma vez que essas pessoas conseguem ter uma funcionalidade em suas vidas.
A pedofilia é crime, é uma violência que se pratica contra a criança pré-púbere, ainda que com o seu consentimento, uma vez que é uma situação onde um adulto submete e subjuga um menor imaturo psiquicamente e sexualmente aos seus desejos.
Alguns estudos no campo da psicologia social tem apontado a erotização precoce das adolescentes através da mídia como um fator favorecedor ao surgimento dessas patologias. Sem dúvida que um meio ambiente permissivo, onde os limites são muito elásticos, somado à questões econômicas (turismo sexual, prostituição infantil em populações de baixa renda, por exemplo), políticas e culturais podem ser favorecedores à atuações psicopatológicas. Porém, não podemos esquecer que estamos falando de um transtorno grave, que não pode ser minimizado.
Muitas vezes as vítimas de pedofilia silenciam sobre o que vivem por medo, até porque o agressor muitas vezes é alguém pertencente à sua rede de relacionamentos. Nesse sentido, é de fundamental importância que pais, educadores e profissionais de saúde estejam atentos à mudanças de comportamento nas crianças, uma vez que estes são os sinalizadores de situações de abuso e violência.
Valdeli e Ana Angélica

terça-feira, 13 de abril de 2010

Novo código de ética médica entra em vigor a partir de hoje

A partir da data de hoje, entra em vigor o novo código de ética aprovado pelo Conselho Federal de Medicina que legisla a prática destes profissionais. O antigo código, surgido em 1988 não abrangia situações que hoje são vivenciadas no cotidiano da prática médica.
A nova legislação tem mais de 188 novas normas, cabendo-se destacar:
- É vedado ao médico intervir no genoma humano com vista à sua modificação (manipulação genética) exceto na terapia gênica.
- A escolha do sexo do bebê é vedada em casos de reprodução assistida.
- A letra utilizada em prescrições, orientações e prontuários deve ser legível.
- O paciente pode ter acesso ao seu prontuário.
- O médico precisa pedir ao paciente o consentimento sobre procedimentos a serem realizados exceto em caso de morte iminente. Caso o paciente esteja comprometido na sua capacidade de juízo e crítica o responsável deve ser consultado.
- Os médicos deverão acatar a decisão de pacientes terminais que não quiserem dar continuidade ao tratamento, praticando somente os cuidados paliativos.
- Se o paciente quiser ouvir uma segunda opinião sobre seu diagnóstico e/ou tratamento o médico deve colaborar, não se opondo a transmitir informações à outro médico, colaborando também para a formação de uma junta médica, caso se faça necessária, para discussão do caso.
- É proibida a participação de médicos em propagandas ou vendas de medicamentos bem como ter seu nome associado a consórcios, cartões de desconto ou planos de financiamento para procedimentos médicos.
- No caso da ausência de médicos nos plantões ou centros de saúde, é responsabilidade da instituição promover o atendimento sob risco de penalização.
- Nenhum regulamento ou disposição de hospitais ou instituições médicas poderá limitar a escolha do médico dos meios cientificamente reconhecidos para tratamento, ou diagnóstico, salvo quando em benefício do paciente.
Essa nova normatização visa não só o fortalecimento e a valorização do profissional médico, mas é um avanço em relação à humanização do atendimento e ao respeito mútuo que deve existir na relação médico-paciente.
Para o acesso a toda a legislação, consulte:
www.ippmg.org.br/imageBank/codigo_etica_medica.pdf
Importante: essas novas regras valem para todo o Brasil!
Valdeli e Ana Angélica

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sobre pais e filhos

Atualmente tem sido muito comum ouvirmos dos pais queixas de que “as crianças estão impossíveis hoje... não dá mais pra controlar os adolescentes... não existe mais respeito nos filhos...” e muitas outras que tem um mesmo núcleo em comum: a idéia de que as crianças e adolescentes do mundo contemporâneo são seres sem limites, que vivem de acordo com seus desejos e vontades, onde não se faz possível qualquer tipo de comunicação.
Colocar a responsabilidade das dificuldades de relacionamento entre pais e filhos nos mesmos, nos parece uma atitude que revela certa dose de imaturidade, o que faz, nesse caso, os pais se aproximarem dos filhos, no que se refere à capacidade de enfrentamento de problemas.
Sem dúvida alguma, o avanço tecnológico tem permitido um maior acesso à redes de informações, o que tem colaborado pra que a nova geração se mostre mais questionadora e com posições com maior sustentação argumentativa. Porém, essa mesma facilidade de acesso às informações podem deixar os adolescentes mais expostos e ter acesso à informações que não necessariamente são pertinentes ou contribuam para o seu desenvolvimento. Além disso, correntes pedagógicas que estimulam o pensamento crítico acabam por colaborar bastante para que esta geração desenvolva um pensar autônomo diferente das gerações anteriores.
Porém, essas mudanças não são as responsáveis pelos conflitos atualmente presentes nas relações pais e filhos, mas sim as profundas alterações que sofreu a família e a sociedade nos últimos anos.
A família sempre teve fundamental importância na formação dos indivíduos. É no seio da família que vivemos nossas primeiras experiências emocionais, nossos primeiros conflitos, onde são transmitidos valores individuais e coletivos, sendo assim, um laboratório para a vida em sociedade. Nesse sentido, a postura adotada pelos pais ainda que nas fases iniciais do desenvolvimento das crianças terão um profundo impacto na forma como os mesmos vão lidar com suas dificuldades em fases ulteriores do desenvolvimento.
E no que a família mudou? A família mudou no sentido de que as funções maternas e paternas estão sendo negligenciadas em relação às necessidades individuais dos progenitores.
Sem dúvida alguma, hoje a sociedade oferece inúmeras possibilidades de crescimento e satisfação de necessidades individuais e a constituição de uma família deixou de ser essencialmente o maior objetivo das pessoas. No entanto, uma vez constituída uma família, uma vez que as pessoas se tornam mães e pais, novos papeis sociais são estabelecidos e com eles novas responsabilidades que não podem – e não devem – ser negligenciadas.
Não estamos com isso defendendo a idéia de que casamentos não podem ser destituídos, que pais não devem se separar em nome dos filhos, longe disso: as pessoas devem sim fazer escolhas em suas vidas e buscarem relações que lhes sejam mais adequadas às suas necessidades afetivas. Aliás, casamentos infelizes, onde os pares se suportam, podem ser muito mais danosos à formação dos filhos. A separação do casal parental é uma experiência dolorosa, sem dúvida, mas também uma experiência de crescimento e aprendizagem para todos. Sendo assim, quando afirmamos que a família mudou, estamos nos referindo ao papel dos pais, independente do fato deles morarem juntos ou não.
Ter filhos e se responsabilizar pelas suas formações como indivíduos é trabalhoso, sem dúvida. Implica em lidar com frustrações, em saber ouvir, em desenvolver capacidade de comunicação, em lidar com o diferente e com sentimentos complexos como impotência, medo, raiva e angústia. Implica em saber falar sim, mas principalmente em saber falar os “nãos” necessários para que os filhos possam ir aos poucos constituindo seus limites e percebendo suas possibilidades. Implica muitas vezes em abrir mão das próprias necessidades de prazer e satisfação pessoal em detrimento de um Outro que precisa de cuidados.
Chama a atenção como esta tarefa tornou-se um fardo para muitos pais. Na verdade, percebe-se que hoje muitas vezes as pessoas querem ter filhos muito mais por vaidade, para se sentir igual ao outro, para constituir uma identidade, do que efetivamente para cuidar de alguém. Conseqüentemente, tais pais delegam à escola, às babás e até aos psicólogos cuidados que são de competência própria.
O que os pais não percebem é o impacto, e o custo que essa des-responsabilização trará às suas relações futuramente. Por exemplo, uma queixa marcante de pais de adolescentes diz respeito ao distanciamento dos filhos, seu isolamento em relação à família e a falta de comunicação. No entanto, ao ouvirmos esses pais no que se refere à períodos anteriores de desenvolvimento dos filhos, percebemos que inicialmente o afastamento foi deles, na medida em que desvalorizavam os conteúdos das conversas com as crianças. Frequentemente nos deparamos com pais que não têm muitos interesses pelas vidas dos filhos, a tal ponto de não terem a menor idéia de quais são seus melhores amigos, o que temem, o que planejam, o que lhes tira o sono. Porque se envolver com o outro dá trabalho... e ter trabalho é exatamente o que as pessoas estão querendo evitar!
Em outras situações até encontramos pais aparentemente envolvidos com o desenvolvimento dos filhos. Aparentemente, porque apesar de nos seus discursos se mostrarem participativos, uma escuta mais atenta aponta para uma necessidade destes em mostrarem para a sociedade suas múltiplas habilidades como pais, revelando novamente pouco comprometimento e pouca percepção das necessidades dos filhos e um comprometimento maior com seu próprio narcicisimo.
Pais são os primeiros modelos das crianças e adolescentes e eles sempre estão atentos ao que é dito e ao que é praticado. Como cobrar dos filhos que respeitem leis e ordens, se os próprios pais estão sempre encontrando uma forma de burlar as leis, parando, por exemplo, em fila dupla na porta da escola? Como cobrar interesse pela leitura, quando os pais muitas vezes são os primeiros a falar que não gostam de ler? Como se pode cobrar o respeito aos pais, quando são eles os primeiros a desrespeitarem seus filhos, seus vizinhos, o pedestre na rua? Como esperar de um filho conversas na mesa quando por tantos anos esses mesmos filhos foram afastados dos pais porque estes estavam cansados e não queriam barulho em volta?
Fica aqui então o nosso recadinho: as relações pais e filhos são constituídas em uma via de mão dupla, o que significa que pais são participantes ativos dessas relações. Não dá para olhar para os filhos e culpabilizá-los por conflitos existentes. Filhos precisam de pais, que tenham a maturidade que eles ainda não desenvolveram para lidar com situações difíceis. Filhos não precisam de pais que se comportam como amigos, ou seja, que se comportam com a mesma imaturidade que eles têm. Precisam de pessoas que os ajudem a desenvolver competências, precisam de orientação, de cuidado, de pessoas que ou auxiliem a ouvir “nãos” e a lidar com toda a gama de sentimentos que muitas vezes os assolam de forma arrebatadora.
Pais são aqueles que não só colaboram na construção de uma sociedade, mas que também são responsáveis pela sua manutenção. Quando nos sentimos em uma sociedade caótica, valeria a pena olharmos para a nossa casa e avaliarmos se o caos não está iniciando e sendo mantido dentro de nossa própria família.
Agora, só uma perguntinha: quando foi a última vez que você sentou com o seu filho para um papo sem compromisso e se dispôs verdadeiramente a ouvi-lo? Sentar e poder ouvir seu filho pode parecer pouco, mas é uma enorme contribuição para o desenvolvimento dele e também da sociedade. É o acolhimento necessário para o desenvolvimento de qualquer indivíduo que antes de encarar o mundo precisa saber que pode contar com um espaço que seja seguro e suporte suas dores, e para os pais mais disponíveis esse encontro pode ser uma maravilhosa experiência de aprendizagem... à dois!
Valdeli e Ana Angelica

quarta-feira, 31 de março de 2010

Tragédias anunciadas: algumas consequencias do descaso com a saúde mental

Em 12/03/2010 fomos surpreendidos com o assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas, e de seu filho Raoni Ornellas Vilas Boas, ambos cometidos por Carlos Eduardo Sundfeld Nunes. O impacto emocional desse acontecimento tomou a todos, pelos mais diferentes motivos: pela idade das vítimas, pela forma como se deu o crime, pela importância de Glauco no universo cultural brasileiro, e principalmente pela percepção de que essa tragédia poderia ter sido evitada.
Passado o período de comoção, cabe fazermos algumas considerações sobre o fato, no que se refere ao descaso que existe nas famílias, e na sociedade em geral para com aquele que manifestadamente apresenta distúrbios afetivos e de comportamento.
A mídia noticiou reiteradamente ser do conhecimento da família as dificuldades de Carlos Eduardo, bem como o fato de ser usuário de maconha. Somado a isso, havia antecedentes familiares de transtornos mentais, com uma tia-avó e a mãe tendo recebido o diagnóstico de esquizofrenia. No entanto, o comportamento da família ao longo dos anos, consistiu em uma minimização, e uma negação destas dificuldades.
As declarações dos avós, de que sabiam que o neto usava maconha “como fazem hoje 90% dos jovens” (Revista Veja, 24/03/10), é espantosa. Revela uma tendência atual da sociedade não só de não entrar em contato com os problemas, mas em justificá-los através do Outro: se todos usam, então não é preciso preocupação.
Em entrevista concedida pelo pai, a ausência de envolvimento no cuidado com o filho também é marcante. Mesmo após acompanhar o desenvolvimento da doença na mãe de Carlos Eduardo, e sabendo a sua gravidade, não impediu que o filho freqüentasse a Igreja Céu de Maria, onde era consumido o chá alucinógeno de ayahuasca, muito embora ele mesmo o houvesse experimentado e constatado os seus efeitos.
Tanto avós quanto o pai afirmam em entrevista concedidas aos demais veículos de comunicação que já haviam “tentado” levá-lo a psicólogos e psiquiatras, mas que ele se recusava a se submeter a um tratamento, por temer “ficar igual à mãe”.
A esquizofrenia é uma doença mental grave, que se caracteriza por uma grande desorganização dos processos mentais e das funções psíquicas, gerando prejuízos em todas as áreas de competências do indivíduo: na sua capacidade de aprendizagem, de interação social, de efetuar avaliações baseadas no juízo e na crítica, na capacidade de efetuar tarefas e fazer escolhas. O indivíduo pode se tornar incapaz de distinguir a realidade da fantasia. Os períodos de desorganização podem ser intercalados com períodos de remissão da doença, o que não significa que o indivíduo se curou, houve simplesmente um abrandamento temporário dos sintomas. Os sintomas dessa doença podem começar no final da adolescência ou por volta dos 40 anos, sendo seu curso crônico, levando à deterioração da personalidade do indivíduo. Sendo assim, é uma doença que necessita de tratamento médico e psicológico, de medicação e algumas vezes de internação.
Existe muito preconceito em torno da doença mental e dos tratamentos em saúde mental. Na nossa sociedade, as pessoas têm muita resistência em entender que as superações de nossas dificuldades internas não dependem de “vontade ou esforço”, na medida em que existem processos mentais que se desenvolvem no nosso psiquismo e que independem dos nossos desejos ou do nosso nível intelectual. Assim também, existe a crença infundada de que tratamentos médicos psiquiátricos causam dependência. Na verdade, em alguns casos as pessoas precisam tomar uma determinada medicação durante a vida porque detêm uma patologia crônica, que vai evoluir se não for tratada. A medicação não vai levar o indivíduo a um estado de fragilidade psíquica, muito pelo contrário, é o que vai permitir que ele possa usar de uma forma adequada todos os seus recursos pois não estará submetido a processos internos desagregadores. A necessidade de internação, em alguns casos, também deve ser entendida como um cuidado a mais, pois muitas vezes o paciente está tão desorganizado que precisa ser monitorado, precisa de cuidados intensivos que dificilmente a família pode oferecer. A internação também é uma forma de proteger o paciente dele mesmo...
É bem possível que se esses cuidados tivessem sido tomados pela família de Carlos Eduardo, essa tragédia poderia ter sido evitada. Uma tragédia que atingiu não só a vítima e sua família, mas também o agressor e sua família.
Os familiares do agressor alegam que “ele não queria” fazer tratamento, mas será que ele estava em condições mentais de fazer a melhor escolha pra ele naquele momento?
Embora seja sofrido ter um membro familiar querido com transtornos mentais, o tratamento adequado é o melhor cuidado que podemos lhe oferecer, ainda que em alguns momentos à sua revelia.
Isso é preservar a vida, promover saúde mental e evitar as dores desencadeadas por tragédias como essa.