Apesar de ouvirmos com uma grande freqüência de homens e mulheres, nas diferentes faixas etárias e estratos sócio-culturais, que todos estão em busca de “construir relações afetivas”, o que observamos é que a cada dia as pessoas estão cada vez mais sozinhas e vivendo um sem-números de desencontros em suas vidas. Uma explicação bastante comum é que isto vem acontecendo em função de que as pessoas “não estão dispostas a se comprometerem”. Essas falas apontam para um dos paradoxos que vivemos neste período que os sociólogos e cientistas sociais denominam “pós-modernidade”.
Realmente é paradoxal o fato de que as pessoas buscam construir relações, porém sem precisarem se comprometer. Há uma ambivalência, que estrutura o campo da impossibilidade: onde não há envolvimento, não há construção.
Não é novidade alguma que estamos vivendo tempos de excessivo consumismo: há uma constante e permanente busca por objetos que tragam prazer ilimitado e anulem sentimentos de solidão e desamparo. Conseqüentemente, o que observamos é que também as relações afetivas se tornaram objetos de consumo. Não há a busca pelo encontro com o outro, com a alteridade, mas a busca por um objeto amoroso destinado única e exclusivamente à satisfação das necessidades afetivas individuais. Então, na medida em que este outro é alguém que também tem desejos e necessidades próprias e que também está em busca de satisfazê-las, o que se vivencia nos encontros afetivos atuais é um grande desencontro. Um desencontro entre desejo e realidade que impede a construção de possibilidades de relacionamento a dois.
Quando ouvimos, na nossa clínica, queixas relacionadas à conflitos afetivos, sempre nos deparamos com uma mesma posição: as pessoas estão sempre prontas a apontar no que o outro foi faltante e muito pouco disponíveis a refletir sobre a sua responsabilidade e suas atitudes nesta relação. Há sempre uma busca em transformar o outro naquele objeto idealizado, ainda que disfarçada sob o desejo altruísta de “querer o melhor”.
Muitas vezes podemos observar relações que são mantidas através de um vínculo perverso, agressivo e hostil, onde o único desejo que parece unir o casal é o desejo de destituir o outro de sua auto-estima e capacidade de realização pessoal.
Relacionar-se implica em estabelecer uma relação de cuidados e o que percebemos é que as pessoas querem ser cuidadas... Mas não querem cuidar.
Cuidar não significa “ser responsável por”, mas ter consideração. Considerar o outro nas suas necessidades, nas suas diferenças, nos seus desejos.
Toda relação envolve uma certa quantidade de frustração, mas devemos avaliar se aquilo que chamamos de frustração na relação não esconde, na verdade, uma falta de comprometimento e de responsabilização pessoal pela própria existência...
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Individualidade versus Personalidades narcísicas
A individualidade é algo real e crescente na atualidade. Pode ser definida como a liberdade e a afirmação do indivíduo diante da coletividade. Em tempos anteriores, as pessoas eram submetidas à valores e normas que ditavam a vida em sociedade. As condições às quais eram submetidas, na maioria das vezes, não coincidiam com seus anseios e projetos de vida. As escolhas eram ditadas pela família ou pelas instituições às quais o indivíduo estava vinculado.
Progressivamente, foi-se vendo a conquista da liberdade. Hoje o homem é norteado por sua razão e vontade, e, sem dúvida, esse é um marco e uma grande aquisição de nossa sociedade.
Se por um lado as conquistas do homem contribuíram para uma maior autonomia e liberdade, temos que analisar outros aspectos que podem ser desencadeados pelo individualismo.
A busca pela realização dos desejos tem contribuído cada vez mais para que posturas individualistas acabem ocorrendo de formas extremadas. Ao privilegiar as vontades particulares, acaba-se deixando de lado os interesses coletivos e a evolução humana acaba ficando estancada, ou até mesmo retrocede. Para defender seu espaço, o indivíduo acaba passando por cima do outro. Desde que eu não seja prejudicado, não importa o que aconteça com o outro. Vemos com isso uma crescente falta de empatia, um egoísmo exagerado, uma insensibilidade e uma intolerância evidente. Perde-se a capacidade de se construir em conjunto e como resultado temos pessoas cada vez mais isoladas em seus ‘mundinhos’.
Essa condição atual pode ser verificada na clínica psicológica, ao nos depararmos com indivíduos com personalidades narcísicas. Essas pessoas são caracterizadas por um padrão invasivo de grandiosidade e necessidade de admiração. Em geral são pessoas que superestimam suas capacidades e exageram suas realizações e subestimam a capacidade dos demais, freqüentemente parecendo presunçosos ou arrogantes. São pessoas com fantasias de sucesso ilimitado, poder, inteligência, beleza ou amor ideal. Geralmente exigem admiração excessiva. Os indivíduos com personalidade narcisista em geral carecem de empatia e têm dificuldade em reconhecer os desejos, experiências subjetivas e sentimentos dos outros. Estes indivíduos freqüentemente desprezam e se impacientam com outras pessoas que falam de seus próprios problemas e preocupações. Quando reconhecem as necessidades, desejos ou sentimentos alheios, tendem a vê-los como sinais de fraqueza ou vulnerabilidade.
Entretanto, atrás de um comportamento auto-suficiente, observa-se que sua auto-estima é, quase que invariavelmente, muito frágil. Eles podem preocupar-se com o modo como estão se saindo e no quanto são considerados pelos outros. Isto freqüentemente assume a forma de uma necessidade de constante atenção e admiração.
Diante desses apontamentos, pode-se pensar ainda na grande dificuldade existente nesses indivíduos para se vincularem e construírem relações sólidas de confiança e amor, uma vez que se consideram auto-suficientes e, por isso, não precisam das demais.
Sem dúvida é um quadro de difícil tratamento na medida em que a vinculação é comprometida e verificam-se com freqüência as atuações. Mas nem por isso, impossível de se trabalhar em análise, desde que se atente para as questões transferenciais e contra-transferenciais.
Muito embora o Transtorno de Personalidade Narcísica atinja menos de 1% da população geral, vale fazermos uma pausa para pensarmos na forma como temos conduzido nossas vidas. Se não temos colocado nossas individualidades tão em primeiro plano, ao ponto de nos esquecermos da riqueza em poder compartilhar com o outro nossos desejos, nossas conquistas, nossas angústias. Não podemos nos esquecer de que é a partir das relações que nos construímos e não há nada que substitua essa riquíssima experiência em nossas vidas.
Ana Angélica e Valdeli
Progressivamente, foi-se vendo a conquista da liberdade. Hoje o homem é norteado por sua razão e vontade, e, sem dúvida, esse é um marco e uma grande aquisição de nossa sociedade.
Se por um lado as conquistas do homem contribuíram para uma maior autonomia e liberdade, temos que analisar outros aspectos que podem ser desencadeados pelo individualismo.
A busca pela realização dos desejos tem contribuído cada vez mais para que posturas individualistas acabem ocorrendo de formas extremadas. Ao privilegiar as vontades particulares, acaba-se deixando de lado os interesses coletivos e a evolução humana acaba ficando estancada, ou até mesmo retrocede. Para defender seu espaço, o indivíduo acaba passando por cima do outro. Desde que eu não seja prejudicado, não importa o que aconteça com o outro. Vemos com isso uma crescente falta de empatia, um egoísmo exagerado, uma insensibilidade e uma intolerância evidente. Perde-se a capacidade de se construir em conjunto e como resultado temos pessoas cada vez mais isoladas em seus ‘mundinhos’.
Essa condição atual pode ser verificada na clínica psicológica, ao nos depararmos com indivíduos com personalidades narcísicas. Essas pessoas são caracterizadas por um padrão invasivo de grandiosidade e necessidade de admiração. Em geral são pessoas que superestimam suas capacidades e exageram suas realizações e subestimam a capacidade dos demais, freqüentemente parecendo presunçosos ou arrogantes. São pessoas com fantasias de sucesso ilimitado, poder, inteligência, beleza ou amor ideal. Geralmente exigem admiração excessiva. Os indivíduos com personalidade narcisista em geral carecem de empatia e têm dificuldade em reconhecer os desejos, experiências subjetivas e sentimentos dos outros. Estes indivíduos freqüentemente desprezam e se impacientam com outras pessoas que falam de seus próprios problemas e preocupações. Quando reconhecem as necessidades, desejos ou sentimentos alheios, tendem a vê-los como sinais de fraqueza ou vulnerabilidade.
Entretanto, atrás de um comportamento auto-suficiente, observa-se que sua auto-estima é, quase que invariavelmente, muito frágil. Eles podem preocupar-se com o modo como estão se saindo e no quanto são considerados pelos outros. Isto freqüentemente assume a forma de uma necessidade de constante atenção e admiração.
Diante desses apontamentos, pode-se pensar ainda na grande dificuldade existente nesses indivíduos para se vincularem e construírem relações sólidas de confiança e amor, uma vez que se consideram auto-suficientes e, por isso, não precisam das demais.
Sem dúvida é um quadro de difícil tratamento na medida em que a vinculação é comprometida e verificam-se com freqüência as atuações. Mas nem por isso, impossível de se trabalhar em análise, desde que se atente para as questões transferenciais e contra-transferenciais.
Muito embora o Transtorno de Personalidade Narcísica atinja menos de 1% da população geral, vale fazermos uma pausa para pensarmos na forma como temos conduzido nossas vidas. Se não temos colocado nossas individualidades tão em primeiro plano, ao ponto de nos esquecermos da riqueza em poder compartilhar com o outro nossos desejos, nossas conquistas, nossas angústias. Não podemos nos esquecer de que é a partir das relações que nos construímos e não há nada que substitua essa riquíssima experiência em nossas vidas.
Ana Angélica e Valdeli
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quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Sobre a função paterna
O Dia dos Pais se aproxima, e não podíamos deixar de comentar sobre a importância que estes têm na formação das crianças e adolescentes.
Durante muito tempo, no ambiente doméstico, a responsabilidade da educação dos filhos era somente das mães. Ao pai, cabia o papel de provedor. Com a necessidade da inserção da mulher no mercado de trabalho, somado ao crescente número de divórcios, passou-se a dar maior atenção ao papel da figura paterna, como de importância ímpar na educação. No entanto, o que observamos é que muitas vezes esta mudança não se faz de forma tranqüila.
O papel de maior participação na educação dos filhos é um papel relativamente novo a ser desempenhado por alguns pais, e por isso mesmo, ainda gera alguns desconfortos, na medida em que muitos desses pais tiveram como modelos pais ausentes ou autoritários. Então, descolar-se deste modelo e criar uma nova forma de ser implica em deparar-se com situações geradoras de angústias e ansiedades.
Algumas vezes, na ânsia de resolver essas questões, alguns pais tentam comportar-se como extensões da figura materna, o que causa uma maior dificuldade no contato com os filhos.
Não obstante, muitas vezes mães têm dificuldades em delegar os cuidados do filho ao pai. Um dos argumentos mais utilizados por essas mães é que “o pai não cuidará do filho como ela cuida”, indicando uma desconfiança quanto à capacidade paterna de cuidar e educar. Diante disso, algumas vezes nos deparamos com situações onde a educação transforma-se em um verdadeiro campo de batalhas onde se travam enormes disputas que causam grandes prejuízos às crianças.
Inegavelmente mães e pais são diferentes, porque homens e mulheres se constituem de forma diferenciada. A questão é que é de fundamental importância que as crianças possam entrar em contato com essas diferenças, pois elas promovem o crescimento, a discriminação e a constituição da identidade.
O pai, com sua forma de ver o mundo, algumas vezes com mais racionalidade e pragmatismo, permite o desenvolvimento de habilidades sociais importantes, além de impor um limite entre mãe/filho de primordial importância na constituição psíquica das crianças. Muitas vezes é através do relacionamento com o pai que a criança adquire maior confiança em si mesma, porque muitas vezes são os pais que as colocam diante de situações desafiadoras, ao contrário das mães, que muitas vezes tentam proteger os filhos destas mesmas situações. É com o pai muitas vezes que a criança aprende a administrar sua agressividade e a desempenhar um papel mais ativo nas experiências que vive com o Outro.
É ilusório acreditar que a mãe pode suplementar o pai ou vice-versa. Cada um tem um papel importante e bem definido na educação, e o papel do pai é tão importante quanto o papel da mãe. Sem dúvida que isso não significa que cada um deve educar como entende que é o correto. Pai e mãe devem estar alinhados no que consideram educar, deve haver uma concordância nos valores e princípios a serem transmitidos, do contrário a educação torna-se caótica. Nesse sentido, o estabelecimento de uma comunicação de qualidade entre os progenitores é essencial.
Educar filhos não é uma competição sobre quem é o melhor, o mais bonzinho, o mais legal. Também não pode ser o lugar em que se disputa o amor filial, nem o campo para se resolver conflitos com as figuras parentais da geração precedente, nem é um campo de auto-afirmação. Educar é formar indivíduos e essa tarefa exige uma grande dose de tolerância, paciência e capacidade de administração de diferenças, e por isso mesmo, quando é compartilhada, torna-se mais suave para todos. Além do mais, crianças tendem a repetir o que vivenciam em suas casas: se são criadas em clima de respeito, tolerância e cumplicidade, certamente se tornarão adultos mais capacitados a administrar as questões relativas aos relacionamentos humanos que a vida lhes impuser.
Valdeli e Ana Angélica
Durante muito tempo, no ambiente doméstico, a responsabilidade da educação dos filhos era somente das mães. Ao pai, cabia o papel de provedor. Com a necessidade da inserção da mulher no mercado de trabalho, somado ao crescente número de divórcios, passou-se a dar maior atenção ao papel da figura paterna, como de importância ímpar na educação. No entanto, o que observamos é que muitas vezes esta mudança não se faz de forma tranqüila.
O papel de maior participação na educação dos filhos é um papel relativamente novo a ser desempenhado por alguns pais, e por isso mesmo, ainda gera alguns desconfortos, na medida em que muitos desses pais tiveram como modelos pais ausentes ou autoritários. Então, descolar-se deste modelo e criar uma nova forma de ser implica em deparar-se com situações geradoras de angústias e ansiedades.
Algumas vezes, na ânsia de resolver essas questões, alguns pais tentam comportar-se como extensões da figura materna, o que causa uma maior dificuldade no contato com os filhos.
Não obstante, muitas vezes mães têm dificuldades em delegar os cuidados do filho ao pai. Um dos argumentos mais utilizados por essas mães é que “o pai não cuidará do filho como ela cuida”, indicando uma desconfiança quanto à capacidade paterna de cuidar e educar. Diante disso, algumas vezes nos deparamos com situações onde a educação transforma-se em um verdadeiro campo de batalhas onde se travam enormes disputas que causam grandes prejuízos às crianças.
Inegavelmente mães e pais são diferentes, porque homens e mulheres se constituem de forma diferenciada. A questão é que é de fundamental importância que as crianças possam entrar em contato com essas diferenças, pois elas promovem o crescimento, a discriminação e a constituição da identidade.
O pai, com sua forma de ver o mundo, algumas vezes com mais racionalidade e pragmatismo, permite o desenvolvimento de habilidades sociais importantes, além de impor um limite entre mãe/filho de primordial importância na constituição psíquica das crianças. Muitas vezes é através do relacionamento com o pai que a criança adquire maior confiança em si mesma, porque muitas vezes são os pais que as colocam diante de situações desafiadoras, ao contrário das mães, que muitas vezes tentam proteger os filhos destas mesmas situações. É com o pai muitas vezes que a criança aprende a administrar sua agressividade e a desempenhar um papel mais ativo nas experiências que vive com o Outro.
É ilusório acreditar que a mãe pode suplementar o pai ou vice-versa. Cada um tem um papel importante e bem definido na educação, e o papel do pai é tão importante quanto o papel da mãe. Sem dúvida que isso não significa que cada um deve educar como entende que é o correto. Pai e mãe devem estar alinhados no que consideram educar, deve haver uma concordância nos valores e princípios a serem transmitidos, do contrário a educação torna-se caótica. Nesse sentido, o estabelecimento de uma comunicação de qualidade entre os progenitores é essencial.
Educar filhos não é uma competição sobre quem é o melhor, o mais bonzinho, o mais legal. Também não pode ser o lugar em que se disputa o amor filial, nem o campo para se resolver conflitos com as figuras parentais da geração precedente, nem é um campo de auto-afirmação. Educar é formar indivíduos e essa tarefa exige uma grande dose de tolerância, paciência e capacidade de administração de diferenças, e por isso mesmo, quando é compartilhada, torna-se mais suave para todos. Além do mais, crianças tendem a repetir o que vivenciam em suas casas: se são criadas em clima de respeito, tolerância e cumplicidade, certamente se tornarão adultos mais capacitados a administrar as questões relativas aos relacionamentos humanos que a vida lhes impuser.
Valdeli e Ana Angélica
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terça-feira, 27 de julho de 2010
Algumas considerações sobre o projeto de lei contra a proibição de castigos corporais à criança
Na semana passada a mídia publicou matérias e resultados de pesquisas que avaliam o projeto de lei que prevê punição aos pais que se utilizarem de castigos físicos para educar os seus filhos. Este se tornou um assunto polêmico, que tem levantado discussões na sociedade sobre a educação das crianças, com posicionamentos inflamados de quem defende uma ou outra posição.
Sem dúvida alguma, o projeto surge como uma tentativa de coibir abusos, na medida em que é do conhecimento de todos que muitas vezes crianças são violentamente espancadas sob a justificativa de que estão sendo educadas. Os que são contrários à “lei da palmada”, como ficou conhecido popularmente esse projeto, argumentam que “as pessoas sabem diferenciar palmadas de espancamentos, que o Estado não tem o direito de se envolver na vida privada das pessoas e que algumas palmadas não traumatizam ninguém”.
Não é nosso desejo levantar novas polêmicas, mas levantar questões para que as pessoas possam refletir de forma mais aprofundada sobre este assunto.
Não faz muito tempo que a criança passou ser vista na nossa sociedade como um ser humano que têm direitos e necessidades. Até 50, 60 anos atrás (e até menos, em algumas sociedades) à criança só cabia obedecer ao que seus pais e educadores determinavam. A educação se fazia pelo medo. As crianças não obedeciam porque entendiam a necessidade de se comportarem desta ou daquela forma, mas porque temiam os castigos que surgiriam se assim o fizessem. Foi somente na década de 60 que a criança passou a ser valorizada na sociedade, muito como conseqüência da disseminação dos estudos nas áreas da Psicologia e Pedagogia. O Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo, tem somente 18 anos. Isso significa que até então a criança era vista como um objeto dos pais, uma posse destes, e que, portanto, poderia ser manejada em função dos desejos dos pais. É essa idéia que está por trás do argumento de que “os pais podem fazer o que entendem que é mais adequado para a educação das crianças e que o Estado não deve interferir na vida doméstica das famílias”. Sem dúvida alguma, o Estado não deve legislar a vida doméstica. O que ele está tentando fazer é proteger as crianças.
Os pais que defendem o uso das “palmadas” justificam-nas afirmando que eles mesmos já “levaram palmadas” e que entendem, por isso mesmo, que elas não são traumáticas. Uma justificativa que revela um mecanismo de defesa chamado, em Psicanálise, de “identificação com o agressor”: a violência da qual a pessoa foi vítima deixa marcas não elaboradas que fazem com que a pessoa reproduza a situação vivida – o agredido faz-se agressor. Isso, por si, não revelaria a presença do traumático?
A noção de traumatismo em Psicanálise, se refere a um “acontecimento na vida do sujeito que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se encontra o sujeito de reagir a ele de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patogênicos duradouros que provoca na organização psíquica” (Laplanche J. Vocabulário de Psicanálise, São Paulo: Martins Fontes, 1992). Sendo assim, traumático não é somente o que gera graves transtornos, mas aquilo que não pode ser elaborado. Pessoas que entendem que a força e a violência usadas contra uma criança são legitimas, revelam a presença de aspectos não elaborados de sua própria agressividade. Pais que foram criados em um ambiente saudável, continente, acolhedor, ou pais que mesmo tendo vivenciado experiências emocionais similares, conseguiram elaborá-las, não defendem o uso de tal violência.
A violência usada na educação doméstica revela a falência da educação.
O limite é fundamental na educação e a criança pede das mais diferentes formas esses limites, porque o limite delimita, traz segurança, conforta. A questão é que muitas vezes os pais não sabem lidar com limites, não tem coerência na forma com que educam os filhos, o que acaba por gerar crianças autoritárias, agressivas, rebeldes, violentas. Sendo assim, em situações de conflitos estabelece-se o caos familiar, onde a violência gera violência em um ciclo interminável...
A violência é sempre um ato disruptivo e destrutivo: destrói-se a capacidade de comunicação e contato, é uma expressão de raiva de alguém mais forte contra alguém mais frágil e indefeso. Seja uma “palmadinha”, ou uma surra, sempre é um ato violento, em maior ou menor grau, e a violência não tem justificativa.
Algumas pessoas argumentam que existem graus de violência e que devemos ser tolerantes aos graus mais leves desta. Esse argumento parece indicar a direção incoerente em que muitas vezes nossos valores caminham, a saber, a direção de nossos interesses pessoais: à violência que atende aos meus interesses eu sou tolerante, mas não àquela que não atende. Parece-nos ser esta a mesma justificativa usada por aqueles que se utilizam da violência para impor uma determinada ideologia, sistema de governo, religião...
Entendemos que esse projeto de lei pode ser o disparador de uma evolução na educação, na medida em que provoca discussões e reflexões na sociedade, e não o vemos como uma intromissão indevida do Estado. É pouco provável que ele por si só gere mudanças na forma com que alguns pais educam seus filhos. Mas de alguma forma ele chama a atenção dos pais para o fato de que sua função é proteger e cuidar dos seus filhos, e não agredi-los.
Sem dúvida alguma, o projeto surge como uma tentativa de coibir abusos, na medida em que é do conhecimento de todos que muitas vezes crianças são violentamente espancadas sob a justificativa de que estão sendo educadas. Os que são contrários à “lei da palmada”, como ficou conhecido popularmente esse projeto, argumentam que “as pessoas sabem diferenciar palmadas de espancamentos, que o Estado não tem o direito de se envolver na vida privada das pessoas e que algumas palmadas não traumatizam ninguém”.
Não é nosso desejo levantar novas polêmicas, mas levantar questões para que as pessoas possam refletir de forma mais aprofundada sobre este assunto.
Não faz muito tempo que a criança passou ser vista na nossa sociedade como um ser humano que têm direitos e necessidades. Até 50, 60 anos atrás (e até menos, em algumas sociedades) à criança só cabia obedecer ao que seus pais e educadores determinavam. A educação se fazia pelo medo. As crianças não obedeciam porque entendiam a necessidade de se comportarem desta ou daquela forma, mas porque temiam os castigos que surgiriam se assim o fizessem. Foi somente na década de 60 que a criança passou a ser valorizada na sociedade, muito como conseqüência da disseminação dos estudos nas áreas da Psicologia e Pedagogia. O Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo, tem somente 18 anos. Isso significa que até então a criança era vista como um objeto dos pais, uma posse destes, e que, portanto, poderia ser manejada em função dos desejos dos pais. É essa idéia que está por trás do argumento de que “os pais podem fazer o que entendem que é mais adequado para a educação das crianças e que o Estado não deve interferir na vida doméstica das famílias”. Sem dúvida alguma, o Estado não deve legislar a vida doméstica. O que ele está tentando fazer é proteger as crianças.
Os pais que defendem o uso das “palmadas” justificam-nas afirmando que eles mesmos já “levaram palmadas” e que entendem, por isso mesmo, que elas não são traumáticas. Uma justificativa que revela um mecanismo de defesa chamado, em Psicanálise, de “identificação com o agressor”: a violência da qual a pessoa foi vítima deixa marcas não elaboradas que fazem com que a pessoa reproduza a situação vivida – o agredido faz-se agressor. Isso, por si, não revelaria a presença do traumático?
A noção de traumatismo em Psicanálise, se refere a um “acontecimento na vida do sujeito que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se encontra o sujeito de reagir a ele de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patogênicos duradouros que provoca na organização psíquica” (Laplanche J. Vocabulário de Psicanálise, São Paulo: Martins Fontes, 1992). Sendo assim, traumático não é somente o que gera graves transtornos, mas aquilo que não pode ser elaborado. Pessoas que entendem que a força e a violência usadas contra uma criança são legitimas, revelam a presença de aspectos não elaborados de sua própria agressividade. Pais que foram criados em um ambiente saudável, continente, acolhedor, ou pais que mesmo tendo vivenciado experiências emocionais similares, conseguiram elaborá-las, não defendem o uso de tal violência.
A violência usada na educação doméstica revela a falência da educação.
O limite é fundamental na educação e a criança pede das mais diferentes formas esses limites, porque o limite delimita, traz segurança, conforta. A questão é que muitas vezes os pais não sabem lidar com limites, não tem coerência na forma com que educam os filhos, o que acaba por gerar crianças autoritárias, agressivas, rebeldes, violentas. Sendo assim, em situações de conflitos estabelece-se o caos familiar, onde a violência gera violência em um ciclo interminável...
A violência é sempre um ato disruptivo e destrutivo: destrói-se a capacidade de comunicação e contato, é uma expressão de raiva de alguém mais forte contra alguém mais frágil e indefeso. Seja uma “palmadinha”, ou uma surra, sempre é um ato violento, em maior ou menor grau, e a violência não tem justificativa.
Algumas pessoas argumentam que existem graus de violência e que devemos ser tolerantes aos graus mais leves desta. Esse argumento parece indicar a direção incoerente em que muitas vezes nossos valores caminham, a saber, a direção de nossos interesses pessoais: à violência que atende aos meus interesses eu sou tolerante, mas não àquela que não atende. Parece-nos ser esta a mesma justificativa usada por aqueles que se utilizam da violência para impor uma determinada ideologia, sistema de governo, religião...
Entendemos que esse projeto de lei pode ser o disparador de uma evolução na educação, na medida em que provoca discussões e reflexões na sociedade, e não o vemos como uma intromissão indevida do Estado. É pouco provável que ele por si só gere mudanças na forma com que alguns pais educam seus filhos. Mas de alguma forma ele chama a atenção dos pais para o fato de que sua função é proteger e cuidar dos seus filhos, e não agredi-los.
domingo, 11 de julho de 2010
É possível?
Em saúde mental, uma discussão tem sido crescente: a inserção do portador de transtorno mental no mercado de trabalho. Sem dúvida essa é uma discussão muito recente e até a bem pouco tempo inimaginável.
Se recorrermos à história, veremos que o doente mental ao longo do tempo ocupou o lugar daquele que era considerado perigoso, que causava riscos à sociedade, por isso, precisava ser isolado para não gerar problemas. Outras concepções colocavam o portador de transtorno mental no lugar do que era possuído por demônios ou eram bruxos e, também por esses motivos, precisava ser separado socialmente. Dessa forma, vemos que durante séculos, esses indivíduos eram excluídos do convívio social, sendo tratados de forma desumana em instituições ou asilos que não tratavam, pelo contrário, acorrentavam, puniam. Philippe Pinel, diretor do hospital de Salpêtrière, foi um dos primeiros a libertar os pacientes dos manicômios das correntes. Nesse momento, iniciou o pensamento de se tratar esses indivíduos ao invés de punir, por se compreender que tratava de uma doença e não de bruxaria ou possessão demoníaca.
Se pensarmos que o tratamento é algo recente no que se refere à doença mental, a discussão com relação ao trabalho do portador com transtorno mental, é ainda mais atual e tem muito a se pensar. Entretanto, pode-se observar que já existem iniciativas nesse sentido, mostrando que é possível que isso se torne realidade.
Atualmente o Ministério da Saúde tem conhecimento de 156 iniciativas de geração de renda e trabalho de usuários de saúde mental. A maioria delas nasceu dentro dos serviços de saúde mental como nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), ambulatórios, residências terapêuticas, centros de convivência, como parte das ações de reabilitação psicossocial de seus usuários. As chamadas oficinas terapêuticas estão inseridas neste campo e têm servido como espaços de fomento às discussões sobre inserção no mercado de trabalho e na vida em comunidade.
As marcas da exclusão desde os primórdios do isolamento e dos maltratos do doente mental, ainda têm reflexos nos dias de hoje. Essas marcas não são percebidas apenas na sociedade em geral como para o próprio portador de transtorno mental. Este sofre enormemente com a exclusão e com idéia de que é incapaz. Esta idéia leva, conseqüentemente, a necessidade de tutela e proteção.
As iniciativas que visam gerar trabalho para essa população devem ser amparadas e valorizadas. O apoio, a capacitação e o financiamento são palavras chaves para o desenvolvimento das organizações formadas pelos usuários da rede de saúde mental. Dessa forma, pode-se contribuir para a geração de renda, para a reinserção social e, principalmente, para a melhora da auto-estima do portador de transtorno mental, que deixa de ocupar o lugar de incapaz para aquele que pode contribuir para uma sociedade mais justa e solidária.
Valdeli e Ana Angélica
Se recorrermos à história, veremos que o doente mental ao longo do tempo ocupou o lugar daquele que era considerado perigoso, que causava riscos à sociedade, por isso, precisava ser isolado para não gerar problemas. Outras concepções colocavam o portador de transtorno mental no lugar do que era possuído por demônios ou eram bruxos e, também por esses motivos, precisava ser separado socialmente. Dessa forma, vemos que durante séculos, esses indivíduos eram excluídos do convívio social, sendo tratados de forma desumana em instituições ou asilos que não tratavam, pelo contrário, acorrentavam, puniam. Philippe Pinel, diretor do hospital de Salpêtrière, foi um dos primeiros a libertar os pacientes dos manicômios das correntes. Nesse momento, iniciou o pensamento de se tratar esses indivíduos ao invés de punir, por se compreender que tratava de uma doença e não de bruxaria ou possessão demoníaca.
Se pensarmos que o tratamento é algo recente no que se refere à doença mental, a discussão com relação ao trabalho do portador com transtorno mental, é ainda mais atual e tem muito a se pensar. Entretanto, pode-se observar que já existem iniciativas nesse sentido, mostrando que é possível que isso se torne realidade.
Atualmente o Ministério da Saúde tem conhecimento de 156 iniciativas de geração de renda e trabalho de usuários de saúde mental. A maioria delas nasceu dentro dos serviços de saúde mental como nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), ambulatórios, residências terapêuticas, centros de convivência, como parte das ações de reabilitação psicossocial de seus usuários. As chamadas oficinas terapêuticas estão inseridas neste campo e têm servido como espaços de fomento às discussões sobre inserção no mercado de trabalho e na vida em comunidade.
As marcas da exclusão desde os primórdios do isolamento e dos maltratos do doente mental, ainda têm reflexos nos dias de hoje. Essas marcas não são percebidas apenas na sociedade em geral como para o próprio portador de transtorno mental. Este sofre enormemente com a exclusão e com idéia de que é incapaz. Esta idéia leva, conseqüentemente, a necessidade de tutela e proteção.
As iniciativas que visam gerar trabalho para essa população devem ser amparadas e valorizadas. O apoio, a capacitação e o financiamento são palavras chaves para o desenvolvimento das organizações formadas pelos usuários da rede de saúde mental. Dessa forma, pode-se contribuir para a geração de renda, para a reinserção social e, principalmente, para a melhora da auto-estima do portador de transtorno mental, que deixa de ocupar o lugar de incapaz para aquele que pode contribuir para uma sociedade mais justa e solidária.
Valdeli e Ana Angélica
quinta-feira, 24 de junho de 2010
IV Conferência Nacional de Saúde Mental
Acontece em Brasília a partir desse domingo, a IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Tem início no dia 27 de junho e vai até 1º de julho. A conferência nacional foi antecedida por etapas municipais e/ou regionais e etapas estaduais em todo o Brasil.
Os participantes serão divididos entre 1200 delegados (com direito a voz e voto), observadores (10% da delegação de cada Estado, sem direito a voz e voto) e convidados (palestrantes, painelistas, representantes nacionais e internacionais indicados pela comissão organizadora com direito a voz).
A última conferência nacional aconteceu ao final do ano de 2001, em Brasília. Esta conferência - a III Conferência Nacional de Saúde Mental - aconteceu logo após a promulgação da Lei Paulo Delgado, Lei 10.216. A Lei Federal redireciona a assistência em saúde mental, privilegiando o oferecimento de tratamento em serviços de base comunitária, dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, mas não institui mecanismos claros para a progressiva extinção dos manicômios. Ainda assim, a promulgação da lei 10.216 impõe novo impulso e novo ritmo para o processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil. É no contexto da promulgação da lei 10.216 e da realização da III Conferência Nacional de Saúde Mental, que a política de saúde mental do governo federal, alinhada com as diretrizes da Reforma Psiquiátrica, passa a consolidar-se, ganhando maior sustentação e visibilidade.
A III Conferência consolida a Reforma Psiquiátrica como política de governo, confere aos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) o valor estratégico para a mudança do modelo de assistência, defende a construção de uma política de saúde mental para os usuários de álcool e outras drogas, e estabelece o controle social como a garantia do avanço da Reforma Psiquiátrica no Brasil. É a III Conferência Nacional de Saúde Mental, com ampla participação dos movimentos sociais, de usuários e de seus familiares, que fornece os substratos políticos e teóricos para a política de saúde mental no Brasil hoje.
Mas ainda há muito que se discutir. A IV Conferência Nacional de Saúde Mental tem entre os objetivos a promoção do debate da saúde mental com os diversos setores da sociedade no atual cenário da Reforma Psiquiátrica, que indica novos desafios para a melhoria do cuidado em saúde mental no território, devendo contemplar o desenvolvimento de ações intersetoriais.
Para mais informações ou dúvidas sobre a IV Conferência Nacional de Saúde Mental – Intersetorial entre em contato no endereço: ivconferencia.ms@saude.gov.br
Ana Angélica e Valdeli
Os participantes serão divididos entre 1200 delegados (com direito a voz e voto), observadores (10% da delegação de cada Estado, sem direito a voz e voto) e convidados (palestrantes, painelistas, representantes nacionais e internacionais indicados pela comissão organizadora com direito a voz).
A última conferência nacional aconteceu ao final do ano de 2001, em Brasília. Esta conferência - a III Conferência Nacional de Saúde Mental - aconteceu logo após a promulgação da Lei Paulo Delgado, Lei 10.216. A Lei Federal redireciona a assistência em saúde mental, privilegiando o oferecimento de tratamento em serviços de base comunitária, dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, mas não institui mecanismos claros para a progressiva extinção dos manicômios. Ainda assim, a promulgação da lei 10.216 impõe novo impulso e novo ritmo para o processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil. É no contexto da promulgação da lei 10.216 e da realização da III Conferência Nacional de Saúde Mental, que a política de saúde mental do governo federal, alinhada com as diretrizes da Reforma Psiquiátrica, passa a consolidar-se, ganhando maior sustentação e visibilidade.
A III Conferência consolida a Reforma Psiquiátrica como política de governo, confere aos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) o valor estratégico para a mudança do modelo de assistência, defende a construção de uma política de saúde mental para os usuários de álcool e outras drogas, e estabelece o controle social como a garantia do avanço da Reforma Psiquiátrica no Brasil. É a III Conferência Nacional de Saúde Mental, com ampla participação dos movimentos sociais, de usuários e de seus familiares, que fornece os substratos políticos e teóricos para a política de saúde mental no Brasil hoje.
Mas ainda há muito que se discutir. A IV Conferência Nacional de Saúde Mental tem entre os objetivos a promoção do debate da saúde mental com os diversos setores da sociedade no atual cenário da Reforma Psiquiátrica, que indica novos desafios para a melhoria do cuidado em saúde mental no território, devendo contemplar o desenvolvimento de ações intersetoriais.
Para mais informações ou dúvidas sobre a IV Conferência Nacional de Saúde Mental – Intersetorial entre em contato no endereço: ivconferencia.ms@saude.gov.br
Ana Angélica e Valdeli
terça-feira, 15 de junho de 2010
CAPITALISMO EM TEMPOS MODERNOS
As notícias que têm sido publicadas na mídia a respeito da empresa multinacional taiuanesa Foxconn certamente nos chama a atenção e nos faz refletir em alguns aspectos.
Segundo noticiários, a maior empresa chinesa fabricante de aparelhos como o iPad e o iPhone foi surpreendida nas últimas semanas com o suicídio de alguns funcionários, e anunciou que deixará de pagar compensações aos familiares de trabalhadores que se matarem. Isso porque segundo a empresa, os funcionários cometeram o suicídio para que suas famílias recebessem uma indenização.
A empresa justifica dizendo que a maioria dos familiares de empregados que se suicidaram receberia, uma indenização de 100 mil iuenes (cerca de US$ 14,6 mil) e os suicidas eram quase todos jovens recém chegados à firma que provinham de zonas rurais e pobres da China, alguns deles com problemas emocionais como desilusões amorosas ou tristeza por ter deixado sua localidade natal.
Em outras reportagens, entretanto, tem-se apontado que os suicídios dos funcionários ocorreram na mesma época em que protótipos do iPhone teriam vazado da empresa, o que poderia cooperar para o contrabando de produtos falsificados. Nesse sentido, tem-se discutido uma possível relação entre o suicídio dos funcionários e o mercado das falsificações na China. Concomitantemente, outras notícias revelam que os mesmos funcionários eram submetidos a uma carga de trabalho exasperante e salários irrisórios. Segundo um repórter do Suthen Weekly os empregados da empresa chegam a trabalhar 12 hs por dia, praticamente sem períodos se descanso, com um salário na casa dos US$ 130 (cerca de R$240).
Talvez não se chegue a uma conclusão precisa quanto a real causa que levou estes funcionários a tirarem suas vidas. Mas de qualquer forma o fato nos faz pensar em como tem sido a postura das empresas com seus funcionários em tempos de capitalismo e à que situações as pessoas acabam se submetendo em nome de terem um trabalho.
Seja qual for a causa das mortes, o que se nota é que a empresa tem se implicado muito pouco no processo de esclarecimento das mortes, usando diversas justificativas para não assumirem responsabilidades e encargos com seus funcionários, não se implicando nos cuidados com a saúde do trabalhador. Não se questiona se a carga de trabalho é excessiva, se o funcionário está satisfeito com o trabalho, se a remuneração recebida é condizente com a tarefa executada, se existem problemas emocionais ocorrendo com o funcionário, não, nada disso. A justificativa que a empresa utiliza é de que o funcionário tirou sua vida para deixar dinheiro para sua família. Dessa forma se exime de qualquer responsabilidade que possa ter. Ou mesmo se pensarmos que as mortes podem estar relacionadas ao fato da tecnologia ter vazado da empresa através de algum funcionário, seria ainda mais escabroso.
Pensar que alguém é capaz de tirar sua própria vida em nome de que sua família receba indenizações é algo um tanto quanto peculiar de se imaginar. O suicídio implica um enorme sofrimento emocional, significa que o sujeito não consegue pensar em outra alternativa para sua vida senão em tirá-la, uma vez que está submetido à angústias e problemas diante das quais não consegue ver solução. Um indivíduo que se encontra com a saúde mental preservada não vê o suicídio como alternativa para uma situação, mesmo diante de circunstâncias de grande conflito.
Sendo assim, é importante nos questionarmos sobre o lugar que temos ocupado em nossos trabalhos atualmente e se não estamos nos submetendo à condições que nos lembram velhas situações de escravidão, ou mesmo nos submetendo à posições que podem desencadear processos psicopatológicos e grande sofrimento e que coloquem em risco nossa integridade física. Precisamos ter em mente que o trabalho deve ser fonte de prazer, satisfação e crescimento pessoal. Por isso, cabe fazer uma pausa, nos questionar como tem sido o trabalho na vida de cada um de nós e se talvez não seja hora de mudar.
Valdeli e Ana Angélica
Segundo noticiários, a maior empresa chinesa fabricante de aparelhos como o iPad e o iPhone foi surpreendida nas últimas semanas com o suicídio de alguns funcionários, e anunciou que deixará de pagar compensações aos familiares de trabalhadores que se matarem. Isso porque segundo a empresa, os funcionários cometeram o suicídio para que suas famílias recebessem uma indenização.
A empresa justifica dizendo que a maioria dos familiares de empregados que se suicidaram receberia, uma indenização de 100 mil iuenes (cerca de US$ 14,6 mil) e os suicidas eram quase todos jovens recém chegados à firma que provinham de zonas rurais e pobres da China, alguns deles com problemas emocionais como desilusões amorosas ou tristeza por ter deixado sua localidade natal.
Em outras reportagens, entretanto, tem-se apontado que os suicídios dos funcionários ocorreram na mesma época em que protótipos do iPhone teriam vazado da empresa, o que poderia cooperar para o contrabando de produtos falsificados. Nesse sentido, tem-se discutido uma possível relação entre o suicídio dos funcionários e o mercado das falsificações na China. Concomitantemente, outras notícias revelam que os mesmos funcionários eram submetidos a uma carga de trabalho exasperante e salários irrisórios. Segundo um repórter do Suthen Weekly os empregados da empresa chegam a trabalhar 12 hs por dia, praticamente sem períodos se descanso, com um salário na casa dos US$ 130 (cerca de R$240).
Talvez não se chegue a uma conclusão precisa quanto a real causa que levou estes funcionários a tirarem suas vidas. Mas de qualquer forma o fato nos faz pensar em como tem sido a postura das empresas com seus funcionários em tempos de capitalismo e à que situações as pessoas acabam se submetendo em nome de terem um trabalho.
Seja qual for a causa das mortes, o que se nota é que a empresa tem se implicado muito pouco no processo de esclarecimento das mortes, usando diversas justificativas para não assumirem responsabilidades e encargos com seus funcionários, não se implicando nos cuidados com a saúde do trabalhador. Não se questiona se a carga de trabalho é excessiva, se o funcionário está satisfeito com o trabalho, se a remuneração recebida é condizente com a tarefa executada, se existem problemas emocionais ocorrendo com o funcionário, não, nada disso. A justificativa que a empresa utiliza é de que o funcionário tirou sua vida para deixar dinheiro para sua família. Dessa forma se exime de qualquer responsabilidade que possa ter. Ou mesmo se pensarmos que as mortes podem estar relacionadas ao fato da tecnologia ter vazado da empresa através de algum funcionário, seria ainda mais escabroso.
Pensar que alguém é capaz de tirar sua própria vida em nome de que sua família receba indenizações é algo um tanto quanto peculiar de se imaginar. O suicídio implica um enorme sofrimento emocional, significa que o sujeito não consegue pensar em outra alternativa para sua vida senão em tirá-la, uma vez que está submetido à angústias e problemas diante das quais não consegue ver solução. Um indivíduo que se encontra com a saúde mental preservada não vê o suicídio como alternativa para uma situação, mesmo diante de circunstâncias de grande conflito.
Sendo assim, é importante nos questionarmos sobre o lugar que temos ocupado em nossos trabalhos atualmente e se não estamos nos submetendo à condições que nos lembram velhas situações de escravidão, ou mesmo nos submetendo à posições que podem desencadear processos psicopatológicos e grande sofrimento e que coloquem em risco nossa integridade física. Precisamos ter em mente que o trabalho deve ser fonte de prazer, satisfação e crescimento pessoal. Por isso, cabe fazer uma pausa, nos questionar como tem sido o trabalho na vida de cada um de nós e se talvez não seja hora de mudar.
Valdeli e Ana Angélica
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