terça-feira, 15 de junho de 2010

CAPITALISMO EM TEMPOS MODERNOS

As notícias que têm sido publicadas na mídia a respeito da empresa multinacional taiuanesa Foxconn certamente nos chama a atenção e nos faz refletir em alguns aspectos.
Segundo noticiários, a maior empresa chinesa fabricante de aparelhos como o iPad e o iPhone foi surpreendida nas últimas semanas com o suicídio de alguns funcionários, e anunciou que deixará de pagar compensações aos familiares de trabalhadores que se matarem. Isso porque segundo a empresa, os funcionários cometeram o suicídio para que suas famílias recebessem uma indenização.
A empresa justifica dizendo que a maioria dos familiares de empregados que se suicidaram receberia, uma indenização de 100 mil iuenes (cerca de US$ 14,6 mil) e os suicidas eram quase todos jovens recém chegados à firma que provinham de zonas rurais e pobres da China, alguns deles com problemas emocionais como desilusões amorosas ou tristeza por ter deixado sua localidade natal.
Em outras reportagens, entretanto, tem-se apontado que os suicídios dos funcionários ocorreram na mesma época em que protótipos do iPhone teriam vazado da empresa, o que poderia cooperar para o contrabando de produtos falsificados. Nesse sentido, tem-se discutido uma possível relação entre o suicídio dos funcionários e o mercado das falsificações na China. Concomitantemente, outras notícias revelam que os mesmos funcionários eram submetidos a uma carga de trabalho exasperante e salários irrisórios. Segundo um repórter do Suthen Weekly os empregados da empresa chegam a trabalhar 12 hs por dia, praticamente sem períodos se descanso, com um salário na casa dos US$ 130 (cerca de R$240).
Talvez não se chegue a uma conclusão precisa quanto a real causa que levou estes funcionários a tirarem suas vidas. Mas de qualquer forma o fato nos faz pensar em como tem sido a postura das empresas com seus funcionários em tempos de capitalismo e à que situações as pessoas acabam se submetendo em nome de terem um trabalho.
Seja qual for a causa das mortes, o que se nota é que a empresa tem se implicado muito pouco no processo de esclarecimento das mortes, usando diversas justificativas para não assumirem responsabilidades e encargos com seus funcionários, não se implicando nos cuidados com a saúde do trabalhador. Não se questiona se a carga de trabalho é excessiva, se o funcionário está satisfeito com o trabalho, se a remuneração recebida é condizente com a tarefa executada, se existem problemas emocionais ocorrendo com o funcionário, não, nada disso. A justificativa que a empresa utiliza é de que o funcionário tirou sua vida para deixar dinheiro para sua família. Dessa forma se exime de qualquer responsabilidade que possa ter. Ou mesmo se pensarmos que as mortes podem estar relacionadas ao fato da tecnologia ter vazado da empresa através de algum funcionário, seria ainda mais escabroso.
Pensar que alguém é capaz de tirar sua própria vida em nome de que sua família receba indenizações é algo um tanto quanto peculiar de se imaginar. O suicídio implica um enorme sofrimento emocional, significa que o sujeito não consegue pensar em outra alternativa para sua vida senão em tirá-la, uma vez que está submetido à angústias e problemas diante das quais não consegue ver solução. Um indivíduo que se encontra com a saúde mental preservada não vê o suicídio como alternativa para uma situação, mesmo diante de circunstâncias de grande conflito.
Sendo assim, é importante nos questionarmos sobre o lugar que temos ocupado em nossos trabalhos atualmente e se não estamos nos submetendo à condições que nos lembram velhas situações de escravidão, ou mesmo nos submetendo à posições que podem desencadear processos psicopatológicos e grande sofrimento e que coloquem em risco nossa integridade física. Precisamos ter em mente que o trabalho deve ser fonte de prazer, satisfação e crescimento pessoal. Por isso, cabe fazer uma pausa, nos questionar como tem sido o trabalho na vida de cada um de nós e se talvez não seja hora de mudar.
Valdeli e Ana Angélica

sábado, 5 de junho de 2010

A importância do limite na formação das crianças

Tem sido comum nos últimos anos, que pais aflitos procurem psicólogos para tentarem entender suas crianças que, segundo eles próprios dizem, “saíram do controle”. Ao mesmo tempo, é crescente a constatação de professores e orientadores escolares que os pais não estão conseguindo controlar seus filhos. Alguns pais nos dizem que “as crianças de hoje não obedecem mais, não aceitam limites”, relatando situações de conflitos com os seus filhos onde sentem-se absolutamente impotentes no manejo destas situações.
Mas será que as crianças mudaram?
Certamente hoje as crianças têm mais acesso a informações, estão mais questionadoras e sentem-se mais seguras para fazer os seus enfrentamentos. No entanto, existe uma questão importante: essa criança não está se formando sozinha, está inserida em um núcleo familiar cujas intra-relações colaboram para a sua formação e lhes servem como modelo. E isso muitas vezes, é esquecido pelos pais, e à criança é depositada toda a responsabilidade por seus atos e atitudes.
Por volta dos anos 70, 80, o modelo de educação familiar e escolar até então vigente passou a ser profundamente questionado, e as novas teorias psicológicas e orientações pedagógicas traziam como fundamental a necessidade de um olhar qualitativamente diferente sobre a criança, olhar esse que valorizasse suas necessidades e seu processo de desenvolvimento individual. Os vínculos entre pais e filhos e mesmo entre professores e alunos se alteraram, com uma maior proximidade e o estabelecimento de francos diálogos. No entanto, parece ter havido alguns equívocos nesse processo e um deles, foi a confusão que se criou entre o significado de “limite” e “repressão”. Nesse sentido, essas palavras passaram a ser tratadas como sinônimos, e uma vez que estas novas correntes de saber questionavam a repressão, o limite também passou a ser questionado na educação das crianças. Conseqüentemente, excessos passaram a ser cometidos, e o limite, pedra angular na formação das crianças passou a não ser mais claramente estabelecido. O resultado é o caos que ultimamente observamos nas relações entre pais e filhos.
O estabelecimento de limites é fundamental para a formação da criança em indivíduo autônomo e inserido na sociedade, uma vez que ele permite que a criança discrimine suas competências, se adéqüe às regras sociais e se desenvolva integralmente. A ausência ou a fragilidade dos limites podem gerar perturbações como:
- dificuldade em desenvolver a capacidade de juízo e crítica;
- dificuldade no estabelecimento dos processos mentais que permitem a aprendizagem;
- desorganização do pensamento;
- intolerância à frustração;
- impulsividade que pode colocar em risco sua integridade física e psíquica;
- instabilidade emocional que pode favorecer o estabelecimento de quadros psicopatológicos;
- inadequação à ambientes de convívio social.
Colocar limites é trabalhoso, e não se consegue fazê-lo de forma violenta, mas é uma construção diária nas relações. Além do mais, construir esses espaços de discriminação nos leva também a ter que lidar com a nossa própria forma de estabelecer nossos limites, e é aí que muitas vezes os pais se perdem.
A informação também é um componente importante nesse processo, existindo uma literatura disponível para instrumentalizar os pais nessa tarefa. Sugerimos o excelente livro de Rosely Sayão, “Como educar meu filho?”, porém lembramos que não existe manual de instrução. Cada família e cada criança têm sua individualidade que precisa ser percebida e compreendida, portanto livros são instrumentos auxiliares.
Consultar um psicólogo também pode ser bastante valioso, uma vez que este profissional pode identificar áreas de conflito e colaborar em um processo de reorganização familiar.
Valdeli e Ana Angélica

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ética na mídia: considerações sobre crítica à matéria publicada na Folha de São Paulo

Como profissionais de saúde mental, procuramos nos manter constantemente atualizadas sobre matérias publicadas na mídia que de forma direta ou indireta, enfoquem questões referentes ao relacionamento humano, à saúde mental e qualidade de vida. Sendo assim, temos por hábito acompanhar as matérias publicadas no caderno do jornal Folha de São Paulo destinado ao público jovem, o Folhateen, na medida em que este é um dos públicos-alvo dos nossos atendimentos.
Qual não foi nossa surpresa ao encontrarmos, no dia 17/05/2010, na coluna “Internets” do referido caderno, matéria publicada pelo Sr Ronaldo Lemos que era um claro incentivo à pirataria. Na referida coluna este Sr fazia uma crítica ao fato de que proprietários do iPhone não conseguiam baixar diretamente da Apple jogos e aplicativos na medida em que a empresa não se submetia à lei de classificação indicativa de jogos e sugeria uma solução para o problema em questão (transcrição literal): “se no cadastro da loja da Apple você se identificar como argentino, um mundo imenso de jogos e outros aplicativos não disponíveis vai se abrir. A única exigência é que o candidato a 'hermano' coloque um CEP da Argentina (meu amigo recomenda o uso do CEP da Associação de Futebol Argentino, que é C1053ACB)”.
Ou seja, o referido colunista não só incentivava a transgressão como ensinava os passos para fazê-la! E mais, o senhor em questão tem formação em Direito!
Estamos vivendo tempos onde os valores éticos e de respeito à sociedade estão sendo constantemente atacados em detrimento de valores individuais, e embora fiquemos perplexos e indignados quando tomamos contato com situações como essa, nossa tendência geralmente é reclamar junto àqueles com quem convivemos, criticar a omissão da sociedade e... Calamos-nos. Porém resolvemos tomar uma atitude.
Escrevemos uma crítica ao colunista com cópia para a redação do caderno e ao ombudsman do jornal. O colunista, como era esperado, tentou minimizar sua atitude, colocando que estava somente “citando um fato de forma bem humorada”, porém a ombudsman, Sra. Suzana Singer acabou por reconhecer e concordar com nossa crítica, respondendo que “concordava com a nossa opinião sobre a coluna, uma vez que ela dava os passos para a pirataria”.
Não sabemos os desdobramentos que este fato terá, isso se tiver algum desdobramento. Não importa. O que realmente importa é que nos posicionamos como cidadãs e profissionais diante de pessoas que deveriam ser comprometidos com a ética, porém muitas vezes não o são. Gostaríamos sinceramente que este senhor se retratasse na sua próxima coluna, muito embora tememos que suas palavras tenham influenciado negativamente algumas das centenas de jovens leitores desse caderno.
Resolvemos postar aqui esse fato não para alimentarmos algum sentimento de vaidade, mas sim para dizer a vocês que muitas vezes nos omitimos diante de determinadas situações por acreditarmos que sozinhos não conseguimos nada. Isso não é verdade. Sozinhos, podemos fazer sim um trabalho que pode crescer, se multiplicar e efetivamente colaborar para pequenas transformações em nossa sociedade. Cada um de nós é um agente de transformação social, embora na maioria do tempo nos esquecemos disso...
Valdeli e Ana Angélica

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Depressão pós-parto masculina

Não houve erro de digitação, o que você leu é verdade: existe depressão pós-parto masculina, e embora desconhecida, costuma atingir um em cada dez homens no período entre o início da gestação da mulher até o bebê completar um ano. Estes dados acabam de ser publicados no "Jama", periódico da Associação Médica Americana consistindo em uma revisão de 43 estudos com 28 mil participantes. Nos Estados Unidos, a taxa de prevalência é de 14%, porém no Brasil ainda não temos estudos concluídos que nos parmitam uma comparação adequada. O estudo aponta também a existência de correlação entre a depressão pós-parto masculina e a depressão pós-parto feminina.
Entre os vários fatores que podem funcionar como desencadeador desses casos podemos destacar:
- insegurança do pai em relação aos cuidados com o bebê
- insatisfação pela dificuldade em ter uma participação mais ativa nos cuidados com o mesmo
- insatisfação relacionada à vida sexual do casal nesse período
- dificuldades em se adaptar à nova situação
- dificuldades em identificar e compreender as novas necessidades de cuidados e afetos da mãe
- dificuldades em se adaptar às instabilidades de humor da mãe nesse período
- sentimentos de exclusão na relação mãe-bebê
- situação econômica familiar após o nascimento da criança.
A identificação do quadro pode se dar através da observação do comportamento do pai, principalmente se este manifesta sentimentos de competitividade com o bebê (ou se o ignora), se começa a passar mais tempo fora de casa e se tem comportamentos no sentido de afastar a mãe do bebê.
O auxílio terapêutico é o mais indicado em casos leves, porém em pacientes que já apresentem um agravamento do quadro, o acompanhamento médico é imprescindível.
É necessário atenção a este quadro, uma vez que dificuldades emocionais em um ou ambos os pais, certamente terão um impacto no cuidado com a criança, podendo gerar dificuldades também nesse período inicial de desenvolvimento emocional.
Valdeli e Ana Angélica

terça-feira, 11 de maio de 2010

O parceiro ideal

Quem nunca se imaginou com o parceiro perfeito ao seu lado? Certamente tudo mundo já pensou. Mas e o que seria o parceiro ideal? Seria aquela pessoa que realizaria todos os nossos desejos? Ou seria aquela pessoa que mesmo naquele dia em que estivéssemos nos sentindo a pior pessoa do mundo, estaria ao nosso lado para nos encher de elogios e nos colocar lá em cima? Também poderia ser aquela pessoa com quem dividiríamos todos os nossos sonhos, compartilharíamos todas as nossas angústias, nossas incertezas, e ainda assim ali estaria ela, presente, firme ao nosso lado. E claro, seria o mais maravilhoso dos seres, porque perfeito e ideal também inclui ter uma aparência sem defeitos. Mas será que essa perfeição existe? O parceiro ideal existe? Eis a questão.
Vemos hoje que as pessoas possuem múltiplas maneiras de se relacionarem e conhecerem pessoas novas. Ninguém mais se vê preso a relacionamentos que não têm o que acrescentar por simples comodismo ou por questões sociais. Só se fica ao lado de alguém, quando esse outro tem algo muito bom para adicionar, acumular; diminuir jamais. Caso contrário, o melhor é terminar o quanto antes, para não se perder tempo. Pois o tempo de todo mundo hoje é muito precioso, todo mundo está correndo o tempo inteiro, querendo aproveitar cada instante da vida, nada pode escapar.
Os adolescentes têm o “ficar”. Vão às baladas, beijam um, dois, três, quatro. Quanto mais, melhor. O legal é poder experimentar o quanto puderem. Já os adultos podem ter os “relacionamentos abertos”. Tem-se o relacionamento com uma pessoa, mas sem compromisso. Cada um leva sua vida de forma independente e, se surgir alguém interessante, pode-se relacionar com o terceiro também. O que se considera interessante é o não se vincular, é não precisar se envolver e se responsabilizar pelo relacionamento.
Mas o que podemos notar, mesmo com a moda do ficar e dos relacionamentos abertos, é que todo mundo continua desejando ter um parceiro perfeito ao lado. E porque será tão difícil encontrar esse parceiro perfeito? Talvez seja pelo fato dele simplesmente não existir. Não existe ninguém perfeito. Existem pessoas com as quais podemos ter uma identificação maior, que combinem mais com a gente e isso pode ajudar na construção de um relacionamento. Mas não significa que esse parceiro não tenha inúmeros defeitos assim como nós mesmos. E nem o fato de encontrarmos alguém que seja um pouco mais parecido com a gente, significará que será fácil se relacionar com essa pessoa.
Relacionar-se significa estar aberto para conhecer um Outro e saber que mesmo tendo coisas em comum, existem as diferenças, características de cada que terão que ser respeitadas, porque cada um possui a sua individualidade. Significa construir uma relação que não nos é dada como pronta. Sendo assim, exige tolerância, cuidado e, claro, muito amor e dedicação. E para se conseguir isso, temos que nos dedicar antes de tudo a nos conhecermos, nos constituirmos como pessoas, inteiras, para depois pensarmos em compartilhar a vida com outra pessoa.
Poder conhecer muita gente e se relacionar com outras tantas pode ser muito interessante, mas muito gostoso também é poder conhecer a mesma pessoa todos os dias, ver o que ela tem de novo e o que ainda não se conhecia até então. Isso significa sermos maduros e estarmos realmente preparados para encontrarmos o parceiro ideal, não porque se encontrará a perfeição, mas porque já se estará suficientemente amadurecido para saber que cada um é um, com suas qualidades e defeitos, mas ainda assim poder se construir uma relação e uma vida a dois.

Ana Angélica e Valdeli

terça-feira, 4 de maio de 2010

Mensagens pela internet à pacientes com câncer

O Instituto Mario Penna, em Belo Horizonte instituiu uma projeto inovador para os pacientes internados em tratamento contra o câncer.
A campanha, denominada "Doe Palavras", permite que os pacientes recebam mensagens pela internet de amigos ou anônimos, sendo estas mensagens reproduzidas nas 12 TVs instaladas nas unidades de quimioterapia, radioterapia e sala de espera do hospital. A ideia do projeto é criar um banco de frases que possam transmitir conforto e esperança aos pacientes e familiares, e por isso mesmo, as frases passam por uma triagem para que se evitem piadas ou frases desagradáveis.
Segundo o diretor do hospital Cassio Eduardo Rosa Resende, "o paciente se sente envolvido por uma corrente virtual que se torna real".
As mensagens ficam nos televisores por 24hs e também podem ser lidas no site da campanha. No final do ano as melhores serão compiladas em um livro a ser distribuido para os hospitais especializados em tratamento de câncer.
Se você também quiser participar dessa corrente virtual do bem, envie sua mensagem para www.doepalavras.com.br.
Ana Angelica e Valdeli

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Um certo mal-estar contemporâneo...

Os últimos 20 anos têm sido surpreendentes para a humanidade. O avanço tecnológico, em todas as áreas do conhecimento humano vem possibilitando aos indivíduos uma ampla gama de escolhas até então inimagináveis, e muito têm contribuído à sociedade, uma vez que o indivíduo não se vê mais limitado a situações ou restrito a fazer escolhas que até então limitavam seus anseios.
Há bem pouco tempo, as famílias se organizavam de uma forma tradicional, as experiências emocionais de relacionamento se davam preferencialmente no ambiente doméstico e as opções no momento de escolha profissional eram restritas, muito vezes restritas aos cursos de medicina, engenharia ou direito, profissões que eram revestidas de status social. Estas escolhas se davam muitas vezes pela influência paterna, o que protegia o indivíduo das angústias relacionadas ao momento de definição profissional.
Os contatos sociais aconteciam dentro dos limites da escola e do bairro, e os relacionamentos afetivos geralmente se davam entre as pessoas mais próximas, não raro entre pessoas que se conheciam desde criança.
As possibilidades se ampliaram. Novos cursos superiores ou cursos de formação técnica surgem a cada dia. Se antes fazer um curso superior era sinônimo de emprego garantido no futuro, vemos hoje que essa formula não é tão exata. Além do mais, as facilidades para se fazer cursos no exterior são crescentes. Assim, é possível vermos hoje famílias em que cada um dos filhos se encontra em um país diferente fazendo coisas completamente diferentes.
As possibilidades de contatos sociais também cresceram. As aproximações acontecem nos mais diversos lugares – em cursos, pela internet, em viagens, podendo acontecer entre pessoas de culturas totalmente diferentes.
Enfim, as possibilidades de escolha em todos os campos – profissional, afetivo, sexual e social - romperam todos os limites.
Entretanto, paralelamente ao grande número de possibilidades, percebemos que as pessoas encontram-se angustiadas, perdidas diante de tantas possibilidades, queixando-se de confusão, sentimentos de vazio e desamparo, e não reconhecimento de suas próprias identidades. As pessoas parecem não saber o que fazer diante de tudo isso, e então se sentem paralisadas, engessadas. Como conseqüência direta, observamos o aumento da prevalência de alguns quadros psicopatológicos como os transtornos de ansiedade e a depressão.
As psicopatologias, na sua maioria, não são simples manifestações de aspectos neurofisiológicos que se apresentam de forma desorganizada, mas devemos entendê-las como resultantes da inter-relação desses aspectos biológicos, de uma estrutura de personalidade que se apresenta fragilizada, associados a interação do indivíduo com o seu meio, a partir das relações que estabelece, e da forma como se coloca no mundo.
Outro fenômeno da atualidade é o surgimento de grupos radicais, fundamentalistas, totalitários, seja no campo da religião, política ou cultura. Na maior parte das vezes seus adeptos estão entre as pessoas que vivem intensamente as angústias descritas acima e que encontram nesses grupos uma possibilidade de constituição da identidade uma vez que os limites eu/outro, interno/externo são rigidamente estabelecidos.
Podemos dizer que os tempos são modernos, as possibilidades sem fim, mas que as pessoas continuam precisando de contornos. Precisam sentir-se seguras, o que se dá à partir do reconhecimento de si mesmo como um indivíduo integrado, e isso só é possível através do enfrentamento da angústia e do desamparo, uma vez que, cada vez mais precisamos nos tornar responsáveis pela construção de nossos limites internos e de nossos paradigmas.
Ana Angélica e Valdeli