domingo, 11 de julho de 2010

É possível?

Em saúde mental, uma discussão tem sido crescente: a inserção do portador de transtorno mental no mercado de trabalho. Sem dúvida essa é uma discussão muito recente e até a bem pouco tempo inimaginável.
Se recorrermos à história, veremos que o doente mental ao longo do tempo ocupou o lugar daquele que era considerado perigoso, que causava riscos à sociedade, por isso, precisava ser isolado para não gerar problemas. Outras concepções colocavam o portador de transtorno mental no lugar do que era possuído por demônios ou eram bruxos e, também por esses motivos, precisava ser separado socialmente. Dessa forma, vemos que durante séculos, esses indivíduos eram excluídos do convívio social, sendo tratados de forma desumana em instituições ou asilos que não tratavam, pelo contrário, acorrentavam, puniam. Philippe Pinel, diretor do hospital de Salpêtrière, foi um dos primeiros a libertar os pacientes dos manicômios das correntes. Nesse momento, iniciou o pensamento de se tratar esses indivíduos ao invés de punir, por se compreender que tratava de uma doença e não de bruxaria ou possessão demoníaca.
Se pensarmos que o tratamento é algo recente no que se refere à doença mental, a discussão com relação ao trabalho do portador com transtorno mental, é ainda mais atual e tem muito a se pensar. Entretanto, pode-se observar que já existem iniciativas nesse sentido, mostrando que é possível que isso se torne realidade.
Atualmente o Ministério da Saúde tem conhecimento de 156 iniciativas de geração de renda e trabalho de usuários de saúde mental. A maioria delas nasceu dentro dos serviços de saúde mental como nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), ambulatórios, residências terapêuticas, centros de convivência, como parte das ações de reabilitação psicossocial de seus usuários. As chamadas oficinas terapêuticas estão inseridas neste campo e têm servido como espaços de fomento às discussões sobre inserção no mercado de trabalho e na vida em comunidade.
As marcas da exclusão desde os primórdios do isolamento e dos maltratos do doente mental, ainda têm reflexos nos dias de hoje. Essas marcas não são percebidas apenas na sociedade em geral como para o próprio portador de transtorno mental. Este sofre enormemente com a exclusão e com idéia de que é incapaz. Esta idéia leva, conseqüentemente, a necessidade de tutela e proteção.
As iniciativas que visam gerar trabalho para essa população devem ser amparadas e valorizadas. O apoio, a capacitação e o financiamento são palavras chaves para o desenvolvimento das organizações formadas pelos usuários da rede de saúde mental. Dessa forma, pode-se contribuir para a geração de renda, para a reinserção social e, principalmente, para a melhora da auto-estima do portador de transtorno mental, que deixa de ocupar o lugar de incapaz para aquele que pode contribuir para uma sociedade mais justa e solidária.
Valdeli e Ana Angélica

quinta-feira, 24 de junho de 2010

IV Conferência Nacional de Saúde Mental

Acontece em Brasília a partir desse domingo, a IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Tem início no dia 27 de junho e vai até 1º de julho. A conferência nacional foi antecedida por etapas municipais e/ou regionais e etapas estaduais em todo o Brasil.
Os participantes serão divididos entre 1200 delegados (com direito a voz e voto), observadores (10% da delegação de cada Estado, sem direito a voz e voto) e convidados (palestrantes, painelistas, representantes nacionais e internacionais indicados pela comissão organizadora com direito a voz).
A última conferência nacional aconteceu ao final do ano de 2001, em Brasília. Esta conferência - a III Conferência Nacional de Saúde Mental - aconteceu logo após a promulgação da Lei Paulo Delgado, Lei 10.216. A Lei Federal redireciona a assistência em saúde mental, privilegiando o oferecimento de tratamento em serviços de base comunitária, dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, mas não institui mecanismos claros para a progressiva extinção dos manicômios. Ainda assim, a promulgação da lei 10.216 impõe novo impulso e novo ritmo para o processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil. É no contexto da promulgação da lei 10.216 e da realização da III Conferência Nacional de Saúde Mental, que a política de saúde mental do governo federal, alinhada com as diretrizes da Reforma Psiquiátrica, passa a consolidar-se, ganhando maior sustentação e visibilidade.
A III Conferência consolida a Reforma Psiquiátrica como política de governo, confere aos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) o valor estratégico para a mudança do modelo de assistência, defende a construção de uma política de saúde mental para os usuários de álcool e outras drogas, e estabelece o controle social como a garantia do avanço da Reforma Psiquiátrica no Brasil. É a III Conferência Nacional de Saúde Mental, com ampla participação dos movimentos sociais, de usuários e de seus familiares, que fornece os substratos políticos e teóricos para a política de saúde mental no Brasil hoje.
Mas ainda há muito que se discutir. A IV Conferência Nacional de Saúde Mental tem entre os objetivos a promoção do debate da saúde mental com os diversos setores da sociedade no atual cenário da Reforma Psiquiátrica, que indica novos desafios para a melhoria do cuidado em saúde mental no território, devendo contemplar o desenvolvimento de ações intersetoriais.
Para mais informações ou dúvidas sobre a IV Conferência Nacional de Saúde Mental – Intersetorial entre em contato no endereço: ivconferencia.ms@saude.gov.br
Ana Angélica e Valdeli

terça-feira, 15 de junho de 2010

CAPITALISMO EM TEMPOS MODERNOS

As notícias que têm sido publicadas na mídia a respeito da empresa multinacional taiuanesa Foxconn certamente nos chama a atenção e nos faz refletir em alguns aspectos.
Segundo noticiários, a maior empresa chinesa fabricante de aparelhos como o iPad e o iPhone foi surpreendida nas últimas semanas com o suicídio de alguns funcionários, e anunciou que deixará de pagar compensações aos familiares de trabalhadores que se matarem. Isso porque segundo a empresa, os funcionários cometeram o suicídio para que suas famílias recebessem uma indenização.
A empresa justifica dizendo que a maioria dos familiares de empregados que se suicidaram receberia, uma indenização de 100 mil iuenes (cerca de US$ 14,6 mil) e os suicidas eram quase todos jovens recém chegados à firma que provinham de zonas rurais e pobres da China, alguns deles com problemas emocionais como desilusões amorosas ou tristeza por ter deixado sua localidade natal.
Em outras reportagens, entretanto, tem-se apontado que os suicídios dos funcionários ocorreram na mesma época em que protótipos do iPhone teriam vazado da empresa, o que poderia cooperar para o contrabando de produtos falsificados. Nesse sentido, tem-se discutido uma possível relação entre o suicídio dos funcionários e o mercado das falsificações na China. Concomitantemente, outras notícias revelam que os mesmos funcionários eram submetidos a uma carga de trabalho exasperante e salários irrisórios. Segundo um repórter do Suthen Weekly os empregados da empresa chegam a trabalhar 12 hs por dia, praticamente sem períodos se descanso, com um salário na casa dos US$ 130 (cerca de R$240).
Talvez não se chegue a uma conclusão precisa quanto a real causa que levou estes funcionários a tirarem suas vidas. Mas de qualquer forma o fato nos faz pensar em como tem sido a postura das empresas com seus funcionários em tempos de capitalismo e à que situações as pessoas acabam se submetendo em nome de terem um trabalho.
Seja qual for a causa das mortes, o que se nota é que a empresa tem se implicado muito pouco no processo de esclarecimento das mortes, usando diversas justificativas para não assumirem responsabilidades e encargos com seus funcionários, não se implicando nos cuidados com a saúde do trabalhador. Não se questiona se a carga de trabalho é excessiva, se o funcionário está satisfeito com o trabalho, se a remuneração recebida é condizente com a tarefa executada, se existem problemas emocionais ocorrendo com o funcionário, não, nada disso. A justificativa que a empresa utiliza é de que o funcionário tirou sua vida para deixar dinheiro para sua família. Dessa forma se exime de qualquer responsabilidade que possa ter. Ou mesmo se pensarmos que as mortes podem estar relacionadas ao fato da tecnologia ter vazado da empresa através de algum funcionário, seria ainda mais escabroso.
Pensar que alguém é capaz de tirar sua própria vida em nome de que sua família receba indenizações é algo um tanto quanto peculiar de se imaginar. O suicídio implica um enorme sofrimento emocional, significa que o sujeito não consegue pensar em outra alternativa para sua vida senão em tirá-la, uma vez que está submetido à angústias e problemas diante das quais não consegue ver solução. Um indivíduo que se encontra com a saúde mental preservada não vê o suicídio como alternativa para uma situação, mesmo diante de circunstâncias de grande conflito.
Sendo assim, é importante nos questionarmos sobre o lugar que temos ocupado em nossos trabalhos atualmente e se não estamos nos submetendo à condições que nos lembram velhas situações de escravidão, ou mesmo nos submetendo à posições que podem desencadear processos psicopatológicos e grande sofrimento e que coloquem em risco nossa integridade física. Precisamos ter em mente que o trabalho deve ser fonte de prazer, satisfação e crescimento pessoal. Por isso, cabe fazer uma pausa, nos questionar como tem sido o trabalho na vida de cada um de nós e se talvez não seja hora de mudar.
Valdeli e Ana Angélica

sábado, 5 de junho de 2010

A importância do limite na formação das crianças

Tem sido comum nos últimos anos, que pais aflitos procurem psicólogos para tentarem entender suas crianças que, segundo eles próprios dizem, “saíram do controle”. Ao mesmo tempo, é crescente a constatação de professores e orientadores escolares que os pais não estão conseguindo controlar seus filhos. Alguns pais nos dizem que “as crianças de hoje não obedecem mais, não aceitam limites”, relatando situações de conflitos com os seus filhos onde sentem-se absolutamente impotentes no manejo destas situações.
Mas será que as crianças mudaram?
Certamente hoje as crianças têm mais acesso a informações, estão mais questionadoras e sentem-se mais seguras para fazer os seus enfrentamentos. No entanto, existe uma questão importante: essa criança não está se formando sozinha, está inserida em um núcleo familiar cujas intra-relações colaboram para a sua formação e lhes servem como modelo. E isso muitas vezes, é esquecido pelos pais, e à criança é depositada toda a responsabilidade por seus atos e atitudes.
Por volta dos anos 70, 80, o modelo de educação familiar e escolar até então vigente passou a ser profundamente questionado, e as novas teorias psicológicas e orientações pedagógicas traziam como fundamental a necessidade de um olhar qualitativamente diferente sobre a criança, olhar esse que valorizasse suas necessidades e seu processo de desenvolvimento individual. Os vínculos entre pais e filhos e mesmo entre professores e alunos se alteraram, com uma maior proximidade e o estabelecimento de francos diálogos. No entanto, parece ter havido alguns equívocos nesse processo e um deles, foi a confusão que se criou entre o significado de “limite” e “repressão”. Nesse sentido, essas palavras passaram a ser tratadas como sinônimos, e uma vez que estas novas correntes de saber questionavam a repressão, o limite também passou a ser questionado na educação das crianças. Conseqüentemente, excessos passaram a ser cometidos, e o limite, pedra angular na formação das crianças passou a não ser mais claramente estabelecido. O resultado é o caos que ultimamente observamos nas relações entre pais e filhos.
O estabelecimento de limites é fundamental para a formação da criança em indivíduo autônomo e inserido na sociedade, uma vez que ele permite que a criança discrimine suas competências, se adéqüe às regras sociais e se desenvolva integralmente. A ausência ou a fragilidade dos limites podem gerar perturbações como:
- dificuldade em desenvolver a capacidade de juízo e crítica;
- dificuldade no estabelecimento dos processos mentais que permitem a aprendizagem;
- desorganização do pensamento;
- intolerância à frustração;
- impulsividade que pode colocar em risco sua integridade física e psíquica;
- instabilidade emocional que pode favorecer o estabelecimento de quadros psicopatológicos;
- inadequação à ambientes de convívio social.
Colocar limites é trabalhoso, e não se consegue fazê-lo de forma violenta, mas é uma construção diária nas relações. Além do mais, construir esses espaços de discriminação nos leva também a ter que lidar com a nossa própria forma de estabelecer nossos limites, e é aí que muitas vezes os pais se perdem.
A informação também é um componente importante nesse processo, existindo uma literatura disponível para instrumentalizar os pais nessa tarefa. Sugerimos o excelente livro de Rosely Sayão, “Como educar meu filho?”, porém lembramos que não existe manual de instrução. Cada família e cada criança têm sua individualidade que precisa ser percebida e compreendida, portanto livros são instrumentos auxiliares.
Consultar um psicólogo também pode ser bastante valioso, uma vez que este profissional pode identificar áreas de conflito e colaborar em um processo de reorganização familiar.
Valdeli e Ana Angélica

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ética na mídia: considerações sobre crítica à matéria publicada na Folha de São Paulo

Como profissionais de saúde mental, procuramos nos manter constantemente atualizadas sobre matérias publicadas na mídia que de forma direta ou indireta, enfoquem questões referentes ao relacionamento humano, à saúde mental e qualidade de vida. Sendo assim, temos por hábito acompanhar as matérias publicadas no caderno do jornal Folha de São Paulo destinado ao público jovem, o Folhateen, na medida em que este é um dos públicos-alvo dos nossos atendimentos.
Qual não foi nossa surpresa ao encontrarmos, no dia 17/05/2010, na coluna “Internets” do referido caderno, matéria publicada pelo Sr Ronaldo Lemos que era um claro incentivo à pirataria. Na referida coluna este Sr fazia uma crítica ao fato de que proprietários do iPhone não conseguiam baixar diretamente da Apple jogos e aplicativos na medida em que a empresa não se submetia à lei de classificação indicativa de jogos e sugeria uma solução para o problema em questão (transcrição literal): “se no cadastro da loja da Apple você se identificar como argentino, um mundo imenso de jogos e outros aplicativos não disponíveis vai se abrir. A única exigência é que o candidato a 'hermano' coloque um CEP da Argentina (meu amigo recomenda o uso do CEP da Associação de Futebol Argentino, que é C1053ACB)”.
Ou seja, o referido colunista não só incentivava a transgressão como ensinava os passos para fazê-la! E mais, o senhor em questão tem formação em Direito!
Estamos vivendo tempos onde os valores éticos e de respeito à sociedade estão sendo constantemente atacados em detrimento de valores individuais, e embora fiquemos perplexos e indignados quando tomamos contato com situações como essa, nossa tendência geralmente é reclamar junto àqueles com quem convivemos, criticar a omissão da sociedade e... Calamos-nos. Porém resolvemos tomar uma atitude.
Escrevemos uma crítica ao colunista com cópia para a redação do caderno e ao ombudsman do jornal. O colunista, como era esperado, tentou minimizar sua atitude, colocando que estava somente “citando um fato de forma bem humorada”, porém a ombudsman, Sra. Suzana Singer acabou por reconhecer e concordar com nossa crítica, respondendo que “concordava com a nossa opinião sobre a coluna, uma vez que ela dava os passos para a pirataria”.
Não sabemos os desdobramentos que este fato terá, isso se tiver algum desdobramento. Não importa. O que realmente importa é que nos posicionamos como cidadãs e profissionais diante de pessoas que deveriam ser comprometidos com a ética, porém muitas vezes não o são. Gostaríamos sinceramente que este senhor se retratasse na sua próxima coluna, muito embora tememos que suas palavras tenham influenciado negativamente algumas das centenas de jovens leitores desse caderno.
Resolvemos postar aqui esse fato não para alimentarmos algum sentimento de vaidade, mas sim para dizer a vocês que muitas vezes nos omitimos diante de determinadas situações por acreditarmos que sozinhos não conseguimos nada. Isso não é verdade. Sozinhos, podemos fazer sim um trabalho que pode crescer, se multiplicar e efetivamente colaborar para pequenas transformações em nossa sociedade. Cada um de nós é um agente de transformação social, embora na maioria do tempo nos esquecemos disso...
Valdeli e Ana Angélica

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Depressão pós-parto masculina

Não houve erro de digitação, o que você leu é verdade: existe depressão pós-parto masculina, e embora desconhecida, costuma atingir um em cada dez homens no período entre o início da gestação da mulher até o bebê completar um ano. Estes dados acabam de ser publicados no "Jama", periódico da Associação Médica Americana consistindo em uma revisão de 43 estudos com 28 mil participantes. Nos Estados Unidos, a taxa de prevalência é de 14%, porém no Brasil ainda não temos estudos concluídos que nos parmitam uma comparação adequada. O estudo aponta também a existência de correlação entre a depressão pós-parto masculina e a depressão pós-parto feminina.
Entre os vários fatores que podem funcionar como desencadeador desses casos podemos destacar:
- insegurança do pai em relação aos cuidados com o bebê
- insatisfação pela dificuldade em ter uma participação mais ativa nos cuidados com o mesmo
- insatisfação relacionada à vida sexual do casal nesse período
- dificuldades em se adaptar à nova situação
- dificuldades em identificar e compreender as novas necessidades de cuidados e afetos da mãe
- dificuldades em se adaptar às instabilidades de humor da mãe nesse período
- sentimentos de exclusão na relação mãe-bebê
- situação econômica familiar após o nascimento da criança.
A identificação do quadro pode se dar através da observação do comportamento do pai, principalmente se este manifesta sentimentos de competitividade com o bebê (ou se o ignora), se começa a passar mais tempo fora de casa e se tem comportamentos no sentido de afastar a mãe do bebê.
O auxílio terapêutico é o mais indicado em casos leves, porém em pacientes que já apresentem um agravamento do quadro, o acompanhamento médico é imprescindível.
É necessário atenção a este quadro, uma vez que dificuldades emocionais em um ou ambos os pais, certamente terão um impacto no cuidado com a criança, podendo gerar dificuldades também nesse período inicial de desenvolvimento emocional.
Valdeli e Ana Angélica

terça-feira, 11 de maio de 2010

O parceiro ideal

Quem nunca se imaginou com o parceiro perfeito ao seu lado? Certamente tudo mundo já pensou. Mas e o que seria o parceiro ideal? Seria aquela pessoa que realizaria todos os nossos desejos? Ou seria aquela pessoa que mesmo naquele dia em que estivéssemos nos sentindo a pior pessoa do mundo, estaria ao nosso lado para nos encher de elogios e nos colocar lá em cima? Também poderia ser aquela pessoa com quem dividiríamos todos os nossos sonhos, compartilharíamos todas as nossas angústias, nossas incertezas, e ainda assim ali estaria ela, presente, firme ao nosso lado. E claro, seria o mais maravilhoso dos seres, porque perfeito e ideal também inclui ter uma aparência sem defeitos. Mas será que essa perfeição existe? O parceiro ideal existe? Eis a questão.
Vemos hoje que as pessoas possuem múltiplas maneiras de se relacionarem e conhecerem pessoas novas. Ninguém mais se vê preso a relacionamentos que não têm o que acrescentar por simples comodismo ou por questões sociais. Só se fica ao lado de alguém, quando esse outro tem algo muito bom para adicionar, acumular; diminuir jamais. Caso contrário, o melhor é terminar o quanto antes, para não se perder tempo. Pois o tempo de todo mundo hoje é muito precioso, todo mundo está correndo o tempo inteiro, querendo aproveitar cada instante da vida, nada pode escapar.
Os adolescentes têm o “ficar”. Vão às baladas, beijam um, dois, três, quatro. Quanto mais, melhor. O legal é poder experimentar o quanto puderem. Já os adultos podem ter os “relacionamentos abertos”. Tem-se o relacionamento com uma pessoa, mas sem compromisso. Cada um leva sua vida de forma independente e, se surgir alguém interessante, pode-se relacionar com o terceiro também. O que se considera interessante é o não se vincular, é não precisar se envolver e se responsabilizar pelo relacionamento.
Mas o que podemos notar, mesmo com a moda do ficar e dos relacionamentos abertos, é que todo mundo continua desejando ter um parceiro perfeito ao lado. E porque será tão difícil encontrar esse parceiro perfeito? Talvez seja pelo fato dele simplesmente não existir. Não existe ninguém perfeito. Existem pessoas com as quais podemos ter uma identificação maior, que combinem mais com a gente e isso pode ajudar na construção de um relacionamento. Mas não significa que esse parceiro não tenha inúmeros defeitos assim como nós mesmos. E nem o fato de encontrarmos alguém que seja um pouco mais parecido com a gente, significará que será fácil se relacionar com essa pessoa.
Relacionar-se significa estar aberto para conhecer um Outro e saber que mesmo tendo coisas em comum, existem as diferenças, características de cada que terão que ser respeitadas, porque cada um possui a sua individualidade. Significa construir uma relação que não nos é dada como pronta. Sendo assim, exige tolerância, cuidado e, claro, muito amor e dedicação. E para se conseguir isso, temos que nos dedicar antes de tudo a nos conhecermos, nos constituirmos como pessoas, inteiras, para depois pensarmos em compartilhar a vida com outra pessoa.
Poder conhecer muita gente e se relacionar com outras tantas pode ser muito interessante, mas muito gostoso também é poder conhecer a mesma pessoa todos os dias, ver o que ela tem de novo e o que ainda não se conhecia até então. Isso significa sermos maduros e estarmos realmente preparados para encontrarmos o parceiro ideal, não porque se encontrará a perfeição, mas porque já se estará suficientemente amadurecido para saber que cada um é um, com suas qualidades e defeitos, mas ainda assim poder se construir uma relação e uma vida a dois.

Ana Angélica e Valdeli