quinta-feira, 29 de abril de 2010

Um certo mal-estar contemporâneo...

Os últimos 20 anos têm sido surpreendentes para a humanidade. O avanço tecnológico, em todas as áreas do conhecimento humano vem possibilitando aos indivíduos uma ampla gama de escolhas até então inimagináveis, e muito têm contribuído à sociedade, uma vez que o indivíduo não se vê mais limitado a situações ou restrito a fazer escolhas que até então limitavam seus anseios.
Há bem pouco tempo, as famílias se organizavam de uma forma tradicional, as experiências emocionais de relacionamento se davam preferencialmente no ambiente doméstico e as opções no momento de escolha profissional eram restritas, muito vezes restritas aos cursos de medicina, engenharia ou direito, profissões que eram revestidas de status social. Estas escolhas se davam muitas vezes pela influência paterna, o que protegia o indivíduo das angústias relacionadas ao momento de definição profissional.
Os contatos sociais aconteciam dentro dos limites da escola e do bairro, e os relacionamentos afetivos geralmente se davam entre as pessoas mais próximas, não raro entre pessoas que se conheciam desde criança.
As possibilidades se ampliaram. Novos cursos superiores ou cursos de formação técnica surgem a cada dia. Se antes fazer um curso superior era sinônimo de emprego garantido no futuro, vemos hoje que essa formula não é tão exata. Além do mais, as facilidades para se fazer cursos no exterior são crescentes. Assim, é possível vermos hoje famílias em que cada um dos filhos se encontra em um país diferente fazendo coisas completamente diferentes.
As possibilidades de contatos sociais também cresceram. As aproximações acontecem nos mais diversos lugares – em cursos, pela internet, em viagens, podendo acontecer entre pessoas de culturas totalmente diferentes.
Enfim, as possibilidades de escolha em todos os campos – profissional, afetivo, sexual e social - romperam todos os limites.
Entretanto, paralelamente ao grande número de possibilidades, percebemos que as pessoas encontram-se angustiadas, perdidas diante de tantas possibilidades, queixando-se de confusão, sentimentos de vazio e desamparo, e não reconhecimento de suas próprias identidades. As pessoas parecem não saber o que fazer diante de tudo isso, e então se sentem paralisadas, engessadas. Como conseqüência direta, observamos o aumento da prevalência de alguns quadros psicopatológicos como os transtornos de ansiedade e a depressão.
As psicopatologias, na sua maioria, não são simples manifestações de aspectos neurofisiológicos que se apresentam de forma desorganizada, mas devemos entendê-las como resultantes da inter-relação desses aspectos biológicos, de uma estrutura de personalidade que se apresenta fragilizada, associados a interação do indivíduo com o seu meio, a partir das relações que estabelece, e da forma como se coloca no mundo.
Outro fenômeno da atualidade é o surgimento de grupos radicais, fundamentalistas, totalitários, seja no campo da religião, política ou cultura. Na maior parte das vezes seus adeptos estão entre as pessoas que vivem intensamente as angústias descritas acima e que encontram nesses grupos uma possibilidade de constituição da identidade uma vez que os limites eu/outro, interno/externo são rigidamente estabelecidos.
Podemos dizer que os tempos são modernos, as possibilidades sem fim, mas que as pessoas continuam precisando de contornos. Precisam sentir-se seguras, o que se dá à partir do reconhecimento de si mesmo como um indivíduo integrado, e isso só é possível através do enfrentamento da angústia e do desamparo, uma vez que, cada vez mais precisamos nos tornar responsáveis pela construção de nossos limites internos e de nossos paradigmas.
Ana Angélica e Valdeli